A manifestação convocada pela FENPROF a 16 de maio voltou a demonstrar o poder organizativo desta federação, com quase cinquenta anos de experiência na representação dos professores. O modelo de mobilização é conhecido e raramente sofre grandes alterações. Desta vez não foi exceção.
Primeiro, ressuscitam-se os delegados sindicais, que nas escolas tantas vezes se furtam ao contacto com os professores recém-chegados, receando provocar atritos administrativos e perturbar o equilíbrio relacional entre os chamados professores da casa. Convocam-se reuniões de base, mais ou menos participadas, em que o mote não foge ao velho pregão: “É preciso lutar, isto só lá vai com luta…”
Segue-se a preparação logística para deslocar grandes massas de professores até ao palco mediático da capital, onde o impacto é sempre, na opinião dos organizadores, mais expressivo e visível. Para este evento em particular, a FENPROF não olhou a despesas: ergueu um grande palco na Praça dos Professores, montou um cenário em movimento na retaguarda, encimado por potentes altifalantes. Não faltaram as tarjas, os panos, as bandeirolas e os estandartes pré-formatados.
No dia da manifestação, ajustou-se o ângulo, definiram-se os protagonistas e os seus papéis, e lá correu a marcha até ao grande palco. Tudo decorreu dentro do previsto. A resposta dos professores foi expressiva, não faltou determinação, e manteve-se a desejada serenidade nos gestos e palavras de ordem dos presentes.
A sensação dos professores de dever cumprido, no dia seguinte à manifestação, é quase sempre acompanhada por uma legítima interrogação:
Mas afinal, para que serve uma manifestação?
De facto, uma manifestação de grande impacto que não seja seguida de uma estratégia clara nas semanas subsequentes arrisca gerar uma perigosa sensação de pausa ou de encerramento reivindicativo. Precisamente o contrário do que se pretende quando o objectivo é uma mobilização contínua da classe. Vejamos algumas práticas que podem alimentar essa eficácia:
Comunicar de forma contínua o peso político e negocial que a presença de milhares de professores na rua tem na mesa das negociações é uma responsabilidade dos dirigentes sindicais. Os governantes não manifestam publicamente o seu desconforto depois de uma grande manifestação; mas esse desconforto existe, e cabe aos representantes sindicais informar a classe, sem rodeios, do seu efeito real nas negociações.
A preocupação excessiva dos sindicatos com a percepção externa das acções de luta pode tornar-se castradora e até perniciosa para uma estratégia de longo prazo. Acreditar que a solidariedade do público gera transformações efectivas na profissão docente é subestimar o grau de individualismo que caracteriza a sociedade actual.
Embora as manifestações fortaleçam a coesão da classe, essa união perde-se quando os discursos ignoram os problemas reais dos trabalhadores. Reivindicações demasiado legalistas, instrumentalizadas ou focadas em ambições pessoais podem arruinar toda uma jornada de luta.
O património de lutas dos professores, as suas vitórias e as suas derrotas, deve ser motor de mobilização e de memória colectiva. Transmitir que todos os direitos foram conquistas, e não ofertas, é uma mensagem com força mobilizadora genuína.
Mantendo uma estratégia reivindicativa coerente e incisiva, os sindicatos não só reforçam nos professores a consciência da importância que as manifestações têm, como podem exercer um efeito de contenção sobre políticas que prejudicam os docentes e, por extensão, a escola pública.
É certo que os efeitos destas jornadas só se fazem sentir semanas depois. Mas há um efeito imediato que não pode ser ignorado. A caricatura discursiva do primeiro-ministro Luís Montenegro, que dias antes insinuou que “os professores não estão na rua, mas sim na escola a ensinar”, caiu por terra. E quem se encarregou de a satirizar, com visibilidade, foi a própria comunicação social, no dia seguinte à mobilização.
Assim, com esta importante mobilização, saíram a ganhar os professores, que recuperam a sua voz de classe. Saiu a ganhar a FENPROF, que vê reforçada a legitimidade que lhe garante um lugar efectivo na mesa negocial. E saiu fragilizado o ministério da educação, não apenas pela dimensão da contestação, mas pela forma como expôs os seus próprios satélites. Aqueles professores-opinadores dos blogues e redes sociais, habituados a apaziguar a classe ou a defender a tutela, apressaram-se a criticar o ministro Fernando Alexandre mal sentiram a pressão das ruas.
O que resta agora saber é se esta vaga de contestação terá continuidade estratégica, ou se se dissolverá, como tantas vezes, na sensação confortável de dever cumprido.