Sincericídio no Ministério – Fernando Alexandre e a Verdade Inconveniente

Neste artigo, analisamos a mais recente polémica em torno do Ministro da Educação, Fernando Alexandre, a partir de um texto satírico que cruza psicanálise, retórica política e crítica social. Entre deslizes verbais e negações públicas, exploramos como uma “sinceridade involuntária” expôs uma visão inquietante sobre ensino público, pobreza e responsabilidade política. Comunicação falhada ou verdade reprimida? Uma reflexão mordaz sobre poder, discurso e aquilo que escapa quando o guião falha.

Diz-se, com gentileza excessiva, que o problema de Sua Excelência, Ministro da Educação Fernando Alexandre, reside numa virtuosa incapacidade de comunicar com os cidadãos. Mas a realidade é mais grave e, francamente bem mais sinistra: o Ministro aparenta padecer de uma rara afeção clínica denominada, na gíria psicanalítica, de denegação. Sempre que Sua Excelência tenta verbalizar a sua própria “verdade”, esta nasce torta; e, mal escapa da boca, o seu “eu” corre apressado a repudiá-la, jurando nunca a ter proferido.

Se esta explicação soa demasiado freudiana, talvez recorrendo a um estilo “bocagiano” possa ajudar a compreender. As palavras que saem da boca de Sua Excelência, Ministro da Educação, nascem quase sempre tortas e malcheirosas: quando fala, desfala; quando mente, desmente; e, se alguma ventosidade lhe escapa, garante solenemente que foi o vizinho quem a soprou.

Pomander

Na última semana, a opinião pública assistiu, fascinada e, ao mesmo tempo horrorizada, à mais recente manifestação do distúrbio. No púlpito, Fernando Alexandre lia, com ar solene, sobre o ensino superior, propinas e os investimentos recentes nas residências universitárias para estudantes bolseiros. A sala estava equipada com microfones e câmaras apetrechadas com as mais recentes lentes omnívoras, preparadas para capturarem cada gesto e sílaba de Sua Excelência.

Tudo correria bem se o governante se limitasse à leitura do guião preparado, na véspera, pelo seu assessor de comunicação. Mas a doença, como se sabe, é imprevisível e traiçoeira. Quem conhece bem o senhor ministro reconhece os sinais: os ombros enjeitados, o olhar perdido durante segundos, aquele instante em que a realidade se retira do seu corpo, e algo irracional toma posse do aparelho fonético de sua excelência.

É então, que tudo acontece. Fernando Alexandre desvia os olhos do discurso escrito e, sem a menor cautela, profere a sua “verdade”. Aquela verdade arcaica que brota na ínsula do cérebro, onde convivem o paladar, a dor e o cheiro, e que corre, desenfreada, pelo corredor das emoções até às cordas vocais. Eis que a voz firme do ministro encheu a sala:

“…quando nós metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar do serviço público, nós sabemos que esse serviço público se deteriora; é assim nos hospitais, é assim nas escolas públicas, nós sabemos que é assim. E por isso, aquilo que nós vemos nas residências e que eu – espero enganar-me -, mas que provavelmente vai continuar a acontecer, é que nós vamos ter residências todas renovadas que daqui a cinco anos vão começar a degradar.”

Sua Excelência, o Ministro da Educação, acabara de ter uma nova recaída!

Seguiu-se um silêncio tão constrangedor que até as cadeiras pareciam suster a respiração.
Os assessores, soldados-do-absurdo, e alguns psicanalistas – contratados para estas crises ministeriais – reuniram-se de urgência. Todos sabiam que o episódio de denegação poderia ser ainda mais violento e imprevisível se não fosse devidamente acautelado e enquadrado numa narrativa capaz de atenuar a verdade inaudita de um ministro psiquicamente descompensado.

Convocaram-se rádios, televisões, jornais e todos os estagiários sobrantes. Sua Excelência vai falar ao país! – anunciaram. E assim foi. Fernando Alexandre surge numa minúscula sala improvisada, com bandeirolas institucionais ao fundo e uma câmara que, de tão próxima, lhe aguçava o nariz e lhe recuava os olhos.

Portugal ficou dividido. Para os professores idólatras, tratou-se de uma “tesoura maldosa” dos jornalistas, que não perdoam deslizes ao homem que carinhosamente lhe dão o cognome de “Fernando, o Apaziguador“. Outros, movidos por uma misericórdia quase cristã, pedem que se esconjurem os críticos, e se perdoem os “denegados” governantes.
Muitos outros cidadãos limitaram-se a encolher os ombros, percebendo que Sua Excelência tem, de facto, um plano para o ensino superior: as elites serão convidadas a apoiar os pobres ostracizados com bênçãos e caridade, suplicando aos “energúmenos” que não destruam o património público.

“É mentira, é mentira! Exclamou o ministro. Aquilo que eu disse não fui eu! Jamais diria que os pobres degradam os edifícios públicos.
Aliás, também eu, na minha juventude, passei por residências universitárias, maltratei poltronas, violentei frigoríficos comunitários e limpei as mãos às cortinas sempre que faltava papel – e isto tudo isto apesar de vir de um estrato social muito favorecido!

Em suma, entre o deslize verbal e a negação crónica, vamos finalmente percebendo o que vai na alma de Fernando Alexandre. O problema não é a falta de comunicação; é o excesso de sinceridade involuntária. Resta agora saber se o próximo passo da sua terapia política será o silêncio envergonhado ou se, numa futura apresentação pública, o Ministro nos explicará que os recreios das escolas estão degradados porque as crianças pobres insistem na audácia de brincar neles.

Talvez nos tente convencer de que os tetos a cair, as goteiras persistentes e os forros danificados de tantas escolas públicas são fruto da incúria dos pequenos desfavorecidos pobres que por lá andam, e não de décadas de abandono do património e má gestão governativa.

Até lá, ficam todos avisados: se vir um sofá rasgado numa residência universitária, amianto em muitos tetos ou uma infiltração numa escola pública, não culpe o tempo, o desinvestimento ou a falta de manutenção. Foi um pobre que ali passou – e o Ministro, embora jure que nunca o disse, já sabia que assim seria.

Entre a autoridade institucional e incontinência discursiva do Ministro da Educação Fernando Alexandre.

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