Pedro Brito BESTIÁRIO PRESIDENCIAL 2026 ← Voltar
Bestiário Presidencial 26
Noite Eleitoral

Votos, Vencidos e Outras Bichanices

Por fim, chegou o dia da eleição. O dia da consagração: a escolha do animal de estimação preferido dos portugueses.

Logo pela manhã, os eleitores foram conduzidos às "piras" eleitorais. Entre o ruído de opiniões forjadas e o grunhido do entusiasmo irracional, o povo exerceu o seu direito constitucional de escolher o próximo inquilino da Res Publica. Ou, no mesmo contexto, de selecionar, por entre a fauna presidencial, o espécime de companhia para os próximos cinco anos.

Às primeiras projeções das sondagens "à boca das piras", ficámos a saber que Luís, o Murganho era o grande derrotado da noite. Que pena! Após dez longos anos de companhia televisiva aos domingos à noite, entre recomendações bibliográficas, queijos e vinhos de excelência, o Luís era o favorito de tantos portugueses. Ao que parece, fora do conforto da sua toca, revelou-se um roedor eleitoralmente inexpressivo.

Se foi fácil localizar o Luís, mais difícil foi recolher a opinião do Galgo, o Liberal. Quem passava pelo Príncipe Real deparava-se com estagiários (futuros colaboradores) de jornais e televisões à procura do candidato canídeo. O Galgo alterou as suas rotinas diárias, o horário das suas micções programadas e manteve um silêncio invulgar nos seus latires assexuados àquela "bela e formosa gata", antigo quadro do seu partido.

Felizmente, nesta noite agitada, André Trulha trouxe-nos a paz e os bons costumes do domingo cristão. Recolheu-se na Igreja de S. Domingos e rezou pelos seus, empunhando um terço entre garras afiadas, pedindo a Deus a salvação da alma ao mesmo tempo que semeava a discórdia na terra. Para o turista desprevenido que por ali passava, o estranho e intenso cheiro a podre e a cinzas, provocando naúses e tonturas dos visitantes.

E, claro, o Coelhinho Seguro. Avistado em repouso na sua pequena toca fratricida, piscando o olho aos "socialistas de algibeira" enquanto tentava não assustar os filhos abandonados do sistema mais à direita. Pode o Coelhinho Seguro não ser propriamente um mestre da camuflagem, mas a sua técnica de tentar agradar a todos os predadores acaba sempre por transformá-lo numa presa fácil.

Para completar o cenário desta gloriosa noite, não podemos esquecer os inúmeros Papagaios-Comentadores de serviço que iluminam as nossas televisões de grande formato. O seu palrar esclarecido e a pose de conhecedores de alta política transformam a noite num coro deprimente. Discursam sobre intrigas de corredor e descrevem o mofo dos lugares-comuns, substituindo-se aos candidatos num exercício ventríloquo maçador para quem os ouve.

Findo o escrutínio eleitoral, calados os papagaios-comentadores e exaustos os jornalistas de serviço, eis o veredito final: Toní Seguro e André Trulha disputarão a segunda volta. Estava instalada a crise sem precedentes no seio dos socio-democratas.

Heildemocidio

No último fôlego televisivo da noite, André Trulha proclamou-se o legítimo representante da ala à direita do canídeo. A declaração caiu como um insulto sobre Luís Muflão — que, como se sabe, tenta equilibrar os seus cornos governativos no presente vendo o seu território ser ocupado por um rival mais ruidoso.

Já Toní Seguro, mantendo a distância estratégica do Largo do Rato e com um olho fixo na pocilga de Bruxelas, à espera de um telefonema do seu "amigo" intemporal, apresentou-se como o "último baluarte da democracia!". Erguendo-se como o garante da "serenidade bichana!". Toní assegurou a todos os portugueses que, sob a sua presidência, jamais canídeo algum ousará aliviar-se nos belos tapetes de Arraiolos que resguardam o chão sagrado do Palácio de Belém.

No próximo dia 8 de fevereiro, saberemos quem sairá vencedor deste confronto de feras fofinhas se o coelhinho Seguro que se faz passar por leão, ou o cão Trulhão que ladra em nome de Deus.


conheça os Vencidos da noite