O nosso candidato à Presidência da República, mAndré Trulha (também conhecido como André Trulha), é talvez a mais enigmática criatura do bestiário político nacional. Um homem que parece existir num estado permanente de indignação performativa, como se a cólera fosse vocação e o escândalo, método.
Entre a retórica falaciosa de quem lança o barro à parede e a candura encenada de um olhar húmido para a objetiva certa, emerge o paladino de todos os confrontos, o herói das causas efémeras, o mártir profissional da sua própria narrativa.
Como tão ternamente o descrevem os seus fiéis devotos: André é canídeo que ladra com brio, mas raramente morde É um "anti-sistema" por decreto partidário que, todavia, devora o sistema com apetite; critica em canal aberto, enquanto se banqueteia nele em privado, de guardanapo de seda ao pescoço e as subvenções bem servidas na gamela.
André Trulha possui, reconheça-se, faculdades raras no panorama político luso. Habita numa admirável dualidade existencial: vergasta o Estado com adjetivos ferozes enquanto repousa confortavelmente à sua sombra; excomunga as elites durante o dia e percorre os seus corredores palacianos ao crepúsculo; proclama-se católico fervoroso, mas nutre uma estima particular pelo pecado discreto, longe do escrutínio do rebanho.
No fundo, André resume-se a uma personagem dramática, generosamente remunerada pelo erário público, que entretém os media com estridências coreografadas e diatribes inflamadas. O seu desígnio não é a solução, mas o aprofundamento das fraturas, o cultivo do ressentimento e a manutenção do espetáculo, garantindo que as luzes da ribalta nunca se apaguem.
E assim segue o "povinho" que sustenta e idolatra André Trulha. Uma massa dividida e exausta, que
entre o bacalhau de domingo e a ansiosa espera pelo estio algarvio, encontra na vida uma rotina enfadonha. Entre
o labor, as insónias e a próxima indignação mediática fabricada por Trulha - o seu animal de estimação
predileto.
Entretanto, André Trulha continua a sua marcha, trulhando
impune pelas artérias da velha República.