{"id":1200,"date":"2019-11-03T16:01:55","date_gmt":"2019-11-03T16:01:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/?p=1200"},"modified":"2019-12-18T08:07:46","modified_gmt":"2019-12-18T08:07:46","slug":"os-humores-de-antonio-costa-e-a-cplp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/2019\/11\/03\/os-humores-de-antonio-costa-e-a-cplp\/","title":{"rendered":"Os humores de Ant\u00f3nio Costa e a CPLP"},"content":{"rendered":"<p>Dizem os especialistas em ornitologia que as atitudes e conduta dos pol\u00edticos e governantes em tudo se assemelham ao comportamento dos p\u00e1ssaros. Esta correspond\u00eancia \u00e9 particularmente vis\u00edvel quando analisadas as rotinas das aves migrat\u00f3rias, entre norte e sul, sobre o mar atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Se d\u00favidas houvesse, prontamente se desvaneceriam, bastaria para tal observar as r<em>otinas migrat<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rias<\/em>\u00a0dos governantes portugueses e cabo-verdianos e suas infind\u00e1veis viagens que, em nome da suposta representa\u00e7\u00e3o do Estado, se traduzem numa amplia\u00e7\u00e3o do ego e da individualidade. S\u00e3o in\u00fameras as participa\u00e7\u00f5es em col\u00f3quios aqu\u00e9m e al\u00e9m-mar, em comemora\u00e7\u00f5es despropositadas e em encontros liter\u00e1rios que, \u00e0 margem das visitas diplom\u00e1ticas, abrem espa\u00e7o para condecora\u00e7\u00f5es e outros\u00a0<em>eventos migrat<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rios,\u00a0<\/em>de especial relev\u00e2ncia<em>\u00a0<\/em>para o culto do\u00a0<em>self\u00a0<\/em>e consequente enriquecimento da ci\u00eancia&#8230; ornitol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas as\u00a0<em>aves governantes<\/em>\u00a0portuguesas revelaram comportamentos bizarros, que se traduziram num encurtamento das dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas percorridas e na circunscri\u00e7\u00e3o dos voos ao territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Estas pr\u00e1ticas pouco frequentes ter\u00e3o sido provocadas, dizem os ornit\u00f3logos, pela proximidade das elei\u00e7\u00f5es legislativas portuguesas, o que ter\u00e1 obrigado os pol\u00edticos a manterem-se perto do\u00a0ninho\u00a0povo, para evitar a perda dos seus\u00a0poleiros\u00a0gabinetes.<\/p>\n<p>Agora, que esse estranho tempo eleitoral chegou ao fim e todos os gabinetes foram salvos, pode a passarada retomar aos seus comuns e inquietos h\u00e1bitos migrat\u00f3rios.<\/p>\n<p>De facto, a astuta vigil\u00e2ncia ter\u00e1 sido eficaz, pois, pouco ou nada parece ter mudado na vida da passarada, sen\u00e3o vejamos:<\/p>\n<ul>\n<li>Ant\u00f3nio Costa\u00a0\u00e9 (de novo) primeiro-ministro, pelo que, ser\u00e3o (novamente) garantidos poleiros aos seus abastados s\u00e9quitos. Costa poder\u00e1\u00a0tamb\u00e9m manter bem apertado o abra\u00e7o oportunista, em que tem enredado os\u00a0<em>pa<\/em><em>\u00ed<\/em><em>ses irm<\/em><em>\u00e3<\/em><em>os<\/em>.<\/li>\n<li>O parlamento portugu\u00eas conta agora com ativistas, subvencionados pelo estado, que prometem salvar o mundo, revolucionar consci\u00eancias globais e aderir a um sem n\u00famero de bizarras miss\u00f5es planet\u00e1rias, se sobrar tempo e financiamento, talvez se dediquem\u00a0\u00e0 resolu\u00e7\u00e3o dos dramas que se abatem quotidianamente sobre as\u00a0\u201cpopula\u00e7\u00f5es locais\u201d.<\/li>\n<li>No hemiciclo ter\u00e3o tamb\u00e9m assento alguns especialistas que, apesar de terem feito curr\u00edculo exclusivamente em organismos p\u00fablicos, defendem que os outros se\u00a0<em>lancem de cabe<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a\u00a0<\/em>num moderno empreendedorismo social privado.<\/li>\n<li>Por fim, teremos tamb\u00e9m algumas aves exc\u00eantricas que abnegam as ideologias para se perderem de amores por ide\u00e1rios e causas\u00a0<em>mainstream<\/em>.Esta passarada, rec\u00e9m-eleita, durante a campanha eleitoral evitou de forma astuta e sapiente um conjunto vasto de problemas e afli\u00e7\u00f5es, que quotidianamente afectam e esmagam a vida de \u201coutras aves\u201d. Pouco ou nada se disse sobre: a condi\u00e7\u00e3o de pobreza em que vivem 2 milh\u00f5es de portugueses; o crescimento c\u00e9lere e desumano das assimetrias entre classes sociais; o desemprego e precariedade laboral galopante; a miser\u00e1vel educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade para poucos; aus\u00eancia de pol\u00edticas s\u00e9rias de natalidade. Estes temas \u201cdesagrad\u00e1veis\u201d foram estrategicamente mantidos fora das discuss\u00f5es, debates e manobras eleitorais, ningu\u00e9m ousou\u00a0<em>debic<\/em><em>\u00e1<\/em><em>-los\u00a0<\/em>publicamente, dizem as aves mais experientes que a sua inclus\u00e3o nas agendas da campanha n\u00e3o ajuda a conquistar votos.Para mem\u00f3ria futura ficam momentos de campanha eleitoral particularmente infelizes e que muito dizem sobre a forma como os governantes portugueses olham para os pa\u00edses da CPLP, muito em particular para Cabo Verde.(\u2026)<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1202\" src=\"https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/sao-humores.jpg\" alt=\"\" width=\"1597\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/sao-humores.jpg 1597w, https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/sao-humores-300x203.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1597px) 100vw, 1597px\" \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda o elevador da associa\u00e7\u00e3o cabo-verdiana, em Lisboa, ia a meio e j\u00e1 se sentia o cheiro da cachupa. Desta vez, a comitiva aguardada na sede da associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era a do senhor primeiro-ministro de Cabo Verde, nem de sua excel\u00eancia o embaixador de Cabo Verde, mas sim a de Ant\u00f3nio Costa e sua deslumbrada fam\u00edlia partid\u00e1ria. Tratou-se de um retorno, disse o candidato a primeiro-ministro, a um lugar de onde &#8220;guarda recorda\u00e7\u00f5es emotivas&#8221;.<\/p>\n<p>Essas \u201crecorda\u00e7\u00f5es emotivas\u201d podem render uns quantos votos e, Costa sabe bem disso, pelo que jamais iria perder a oportunidade de \u201cconfraternizar\u201d e distribuir propaganda junto da comunidade cabo-verdiana, que aqu\u00e9m e al\u00e9m-mar, representa um importante nicho eleitoral. O apoio que, num passado recente, Costa prestou \u00e0s comunidades emigrantes foi determinante na edifica\u00e7\u00e3o da sua carreira pol\u00edtica, de tal forma que ainda hoje retira dividendos do epis\u00f3dio, pelo que faz quest\u00e3o de o manter vivo na mem\u00f3ria dos cabo-verdianos.<\/p>\n<p>Entre uma garfada de tenro feij\u00e3o e um gole de vinho bom, Ant\u00f3nio Costa esclarece os convivas da cachupa-rica acerca dos entraves que t\u00eam dificultado os fluxos migrat\u00f3rios, entre Portugal e os restantes pa\u00edses da CPLP. Costa, despudoradamente, designa esses entraves por \u201chumores&#8221;.<\/p>\n<p>S\u00e3o os humores de determinados pa\u00edses que t\u00eam atrasado a implementa\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es que permitam a livre circula\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, entre os diferentes pa\u00edses da comunidade. Disse Costa.<\/p>\n<p>Humores Ant\u00f3nio Costa?<\/p>\n<p>Bu na toka bu na badja<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o candidato Ant\u00f3nio Costa tem consci\u00eancia das dificuldades e exig\u00eancias que um comum cidad\u00e3o cabo-verdiano enfrenta ao solicitar um visto para entrar em Portugal, mesmo que em causa esteja o mais nobre e simples dos motivos &#8211; visitar seus familiares?<\/p>\n<p>O candidato Costa sabe, porventura, que muitos dos cidad\u00e3os cabo-verdianos residentes em outras ilhas necessitam de viajar at\u00e9 \u00e0 capital do pa\u00eds (cidade da Praia), pagar com as suas ex\u00edguas economias essa desloca\u00e7\u00e3o, para assim tentarem obter de forma mais c\u00e9lere o visto e, mesmo assim, n\u00e3o terem qualquer garantia de que lhes v\u00e1 ser concedido o almejado papel?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que Ant\u00f3nio Costa acompanha as not\u00edcias acerca das in\u00fameras humilha\u00e7\u00f5es que muitos guineenses sofrem nas fronteiras dos pa\u00edses da CPLP?<\/p>\n<p>Estou certo que Ant\u00f3nio Costa conhece bem todas estas e outras dificuldades, assim como sabe que aos europeus, que desejam entrar em solo cabo-verdiano, apenas se exige uma liga\u00e7\u00e3o \u00e0 internet para adquirir, na hora, um\u00a0<em>papelucho<\/em>\u00a0a troco de uma irris\u00f3ria quantia monet\u00e1ria&#8230;\u00a0Tudo em nome de um suposto crescimento econ\u00f3mico das ilhas, indiferente \u00e0s grades que aprisionam a generalidade da popula\u00e7\u00e3o, enquanto aguardam pela (prometida) autoriza\u00e7\u00e3o para pisar solo europeu!<\/p>\n<p>\u00c9 lament\u00e1vel que, para Ant\u00f3nio Costa estas e outras tormentas quotidianas, sejam designados levianamente como &#8220;humores&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser curioso o\u00a0<em>timing<\/em>\u00a0e o local escolhidos pelo Partido Socialista, que durante quase 30 anos governou o pa\u00eds, para assumir e confessar arrependimento. Descaradamente, na casa dos cabo-verdianos, Ant\u00f3nio Costa brindou os presentes com um c\u00ednico ato de contri\u00e7\u00e3o &#8211; reconheceu, em pleno exerc\u00edcio de propaganda eleitoral, que nos idos anos 90 Portugal cometeu um erro \u201cao acabar com a circula\u00e7\u00e3o sem limites, sem salvar la\u00e7os com pa\u00edses de l\u00edngua portuguesas&#8221;.<\/p>\n<p>Creio que \u00e9 imposs\u00edvel acreditar na boa-f\u00e9 deste descarado ato de propaganda, pois nestas \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o faltaram, a Costa e ao partido que representa, oportunidades para repararem o erro que levaram 29 anos a assumir!<\/p>\n<p>Pois bem, o povo portugu\u00eas acabou de dar a Costa uma derradeira oportunidade para corrigir o malogrado erro, pelo que, ao (de) novo primeiro-ministro apenas resta assumir o compromisso e remediar o passado, salvando de vez a livre circula\u00e7\u00e3o entre os \u201cpa\u00edses irm\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Esperamos que Ant\u00f3nio Costa e o seu papagaio Santos &#8211; especializad\u00edssimo em pol\u00edticas afetivas externas, quando confrontados com a necessidade de viabilizarem as pol\u00edticas migrat\u00f3rias entre os nossos pa\u00edses, n\u00e3o se escondam novamente atr\u00e1s do tratado de Schengen. Pois conhecemos bem a bipolaridade de que padecem os governantes portugueses, sentem-se enormes quando se voltam para (parte de) \u00c1frica e falam baixinho assim que se inclinam para a Europa.<\/p>\n<p>Senhor primeiro-ministro Ant\u00f3nio Costa, n\u00e3o basta dizer que os emigrantes s\u00e3o \u201cuma necessidade premente para um pa\u00eds envelhecido como \u00e9 Portugal\u201d. \u00c9 preciso muito mais!<\/p>\n<p>Temos assistido, nos \u00faltimos anos, \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de emigra\u00e7\u00e3o desregradas, que n\u00e3o servem quem chega, nem a quem c\u00e1 vive, seja qual for a sua nacionalidade. Abandonadas \u00e0 sua sorte, as comunidades emigrantes mais desfavorecidas e desintegradas acabam por ficar, infelizmente, mais vulner\u00e1veis \u00e0 selvajaria\u00a0\u00a0da explora\u00e7\u00e3o laboral e aos baixos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o deste desnorte e profundo desrespeito, por algumas comunidades de emigrantes, fomenta, inevitavelmente, uma s\u00e9rie de confrontos e desigualdades sociais, o que tem feito emergir sentimentos racistas e xen\u00f3fobos entre as popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Entretanto, assim que acabou a cachupa-rica, foi servido um belo e vaporoso grogue a Ant\u00f3nio Costa e sua comitiva, o que talvez justifique o lament\u00e1vel disparate que o ent\u00e3o candidato a primeiro-ministro, teve a ousadia de proferir, em pleno \u201cterrit\u00f3rio\u201d cabo-verdiano. Passo a citar:<\/p>\n<p><em>&#8220;Uma das riquezas da nossa gastronomia\u00a0<\/em><em>\u00e9<\/em><em>\u00a0que, ao contr<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rio dos outros colonizadores cuja cozinha\u00a0<\/em><em>\u00e9<\/em><em>\u00a0particularmente sensaborona, sempre soubemos aproveitar o que mais podia enriquecer as nossa gastronomia e nunca desprez<\/em><em>\u00e1<\/em><em>mos a riqueza dos produtos que\u00a0<\/em><em>\u201c\u00ed<\/em><em>amos encontrando e que nos trouxeram<\/em><em>\u201d<\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p>Findo o repasto, e apreciado at\u00e9 \u00e0 \u00faltima gota o digestivo, a passarada bateu asas e l\u00e1 foi planar sobre os poleiros do(a) Capital!<\/p>\n<p>Pedro Brito,<\/p>\n<p>Lisboa, outubro de 2019<\/p>\n<p>Contos da Macaron\u00e9sia<\/p>\n<p>(Publicado no jornal Santiago Magazine \u00a0&#8211; Cabo Verde &#8211; em 15 de outubro de 2019)<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem os especialistas em ornitologia que as atitudes e conduta dos pol\u00edticos e governantes em tudo se assemelham ao comportamento dos p\u00e1ssaros. 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