{"id":1157,"date":"2019-09-16T09:00:07","date_gmt":"2019-09-16T09:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/?p=1157"},"modified":"2019-09-17T09:00:32","modified_gmt":"2019-09-17T09:00:32","slug":"chegou-o-tempo-deles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/2019\/09\/16\/chegou-o-tempo-deles\/","title":{"rendered":"Chegou o tempo Deles!"},"content":{"rendered":"<p>Quando as estrelas est\u00e3o prestes a desaparecer, naqueles instantes finais da sua brilhante exist\u00eancia, d\u00e1-se uma enorme e resplandecente explos\u00e3o, precedida por uma escurid\u00e3o total que suga tudo que brilha em seu redor, transformando-se num buraco negro.<\/p>\n<p>Esta poderia ser uma excelente caracteriza\u00e7\u00e3o do percurso de vida da maioria das figuras p\u00fablicas da nossa sociedade. No final das suas vidas refor\u00e7am a sua presen\u00e7a nos media, com entrevistas autobiogr\u00e1ficas, mais ou menos saudosistas, em que ficamos a saber como se relacionavam com os seus familiares e outras costumeiras que pouco interesse t\u00eam para a mem\u00f3ria hist\u00f3rica e colectiva do pa\u00eds.<\/p>\n<p>As entrevistas servem tamb\u00e9m para que possam expor os seus surpreendentes planos para o futuro. Bom exemplo de isso \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de Helena Roseta, quanto \u00e0s suas ocupa\u00e7\u00f5es familiares e do envolvimento da sua filha Filipa Roseta, cabe\u00e7a-de-lista por Lisboa nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es legislativas em Portugal.<\/p>\n<blockquote><p><em>&#8220;Chegou o tempo Deles!&#8221;<sup>[1]<\/sup><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Quem s\u00e3o &#8220;eles&#8221; afinal?<\/p>\n<p><em>Eles\u00a0<\/em>s\u00e3o as pr\u00f3ximas estrelas deste &#8220;novo tempo&#8221;. S\u00e3o os filhos e os netos dos obreiros do passado. S\u00e3o as novas estrelas repletas de ambi\u00e7\u00f5es governativas e outras de dom\u00ednio p\u00fablico. S\u00e3o estrelas que j\u00e1 brilham em partidos pol\u00edticos, autarquias, centros culturais, minist\u00e9rios e secretarias de estado.<sup>[2]<\/sup><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1161\" src=\"https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/de-todos.jpg\" alt=\"\" width=\"2654\" height=\"1464\" srcset=\"https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/de-todos.jpg 2654w, https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/de-todos-300x165.jpg 300w, https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/de-todos-2000x1103.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 2654px) 100vw, 2654px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns de <em>eles\u00a0<\/em>viveram a sua adolesc\u00eancia na sombra do her\u00f3i libertador; outros cresceram em fam\u00edlias angustiadas e com medo da sua pr\u00f3pria sombra.<\/p>\n<p>Perante as confiss\u00f5es e revela\u00e7\u00f5es das estrelas em fim-de-vida, e porque o futuro deste pa\u00eds passar\u00e1 inevitavelmente por <em>&#8220;eles&#8221;<\/em>(pelo menos \u00e9 essa a vontade descarada dos seus progenitores) imp\u00f5em-se que se fa\u00e7a uma reflex\u00e3o acerca <em>&#8220;deles<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Quando\u00a0<em>eles\u00a0<\/em>chegam \u00e0 idade adulta (geralmente entre os 30 e 55 anos de idade) levantam a voz e proclamam:\u00a0 <em>&#8220;Tenho de ser digno dos genes que herdei.&#8221;, \u201cO meu pai foi\u00a0o arquitecto de Abril&#8221;, &#8220;minha m\u00e3e, humilde dom\u00e9stica, sempre ajudou os pobres&#8221;, &#8220;apesar de sermos muito ricos, nunca deixamos de ajudar quem precisava&#8221;, &#8220;sou de esquerda, como o meu pai me ensinou&#8230;&#8221;, \u201cantigamente quando o meu pai era dono disto tudo, as coisas eram bem diferentes\u2026\u201d, &#8220;\u00e9 preciso &#8220;rotatividade&#8221; e &#8220;outras caras&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Ficamos assim a conhecer o que pensam os directos herdeiros das estrelas em fim-de-vida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1159\" src=\"https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/img2.jpg\" alt=\"\" width=\"1300\" height=\"689\" srcset=\"https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/img2.jpg 1300w, https:\/\/www.pedrobrito.eu\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/img2-300x159.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1300px) 100vw, 1300px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar das dist\u00e2ncias familiares e das distintas mesclas ideol\u00f3gicas em que foram educados, esta gera\u00e7\u00e3o de ilustres herdeiros, t\u00eam um tra\u00e7o em comum &#8211; partilham o mesmo substantivo\u00a0&#8211; <em>\u201cPoder&#8221;<\/em>. Uns acham leg\u00edtimo ter <em>Poder<\/em>, porque s\u00e3o os directos descendentes dos revolucion\u00e1rios, outros porque o <em>Poder\u00a0<\/em>\u00e9 secularmente seu por heran\u00e7a gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>Importa ent\u00e3o saber, o que fazem com o <em>Poder\u00a0<\/em>que t\u00eam e como este se expressa na vida colectiva.<\/p>\n<p>A maioria das vezes <i>eles\u00a0<\/i>ocupam cargos de direc\u00e7\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Quando estes est\u00e3o ocupados por outros da sua linhagem, (tamb\u00e9m eles amigos do pap\u00e1 e (ou)\u00a0 companheiros de luta revolucion\u00e1ria da mam\u00e3), esperam pacientemente pela resigna\u00e7\u00e3o e, de uma s\u00f3 assentada tomam os seus lugares.<\/p>\n<p>Outras vezes, j\u00e1 com muita experi\u00eancia adquirida enquanto l\u00edderes de uma qualquer federa\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica, ingressam apressadamente num partido pol\u00edtico e num r\u00e1pido piscar-de-olho est\u00e3o no Parlamento, podendo assim partilhar o autom\u00f3vel com os seus familiares nas viagens de regresso a casa.<\/p>\n<blockquote>\n<pre>Afinal, <em>\u201cchegou o tempo deles!\u201d<\/em><\/pre>\n<\/blockquote>\n<p>O leitor poder\u00e1 neste momento pensar que esta realidade de Portugal do s\u00e9culo XXI, pouco ou nada tem a ver com Cabo Verde.<\/p>\n<p>Desengane-se. Pois <em>eles\u00a0<\/em>h\u00e1 j\u00e1 algum tempo que, de malas e <i>bidons<\/i>,\u00a0rumaram \u00e0s ilhas, com uma incomensur\u00e1vel vontade de &#8220;ajudar&#8221;. Levaram consigo \u201ccrowdfundings\u201d, disserta\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas, e outras panaceias com que ampliam um cr\u00f3nico e paralisante assistencialismo.<\/p>\n<p>Muitos de <em>eles<\/em>, acabam por voltar a casa dos seus progenitores. Outros ficam pelas\u00a0ilhas, ocupando as c\u00e1tedras do poeta lusitano, com privil\u00e9gios e honrarias diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>S\u00e3o <em>eles\u00a0<\/em>que nos \u00faltimos anos t\u00eam estabelecido as pontes que ligam Portugal e Cabo Verde; s\u00e3o <em>eles\u00a0<\/em>que decidem muitas das directrizes e programas culturais que se estabelecem entre os dois pa\u00edses; s\u00e3o tamb\u00e9m <em>eles\u00a0<\/em>que decidem o que \u00e9, e o que n\u00e3o \u00e9 cultura identit\u00e1ria da lusofonia. Os discursos e os programas de coopera\u00e7\u00e3o assinados entre estes dois pa\u00edses nos \u00faltimos anos, parcerias e interc\u00e2mbios culturais, na realidade acabam por funcionar como passarelas para internacionaliza\u00e7\u00e3o dos seus &#8220;egos&#8221;.<\/p>\n<p>Veja-se o mais recente exemplo de coopera\u00e7\u00e3o assinado entre o Minist\u00e9rio da Cultura Portugu\u00eas, e o Minist\u00e9rio das Ind\u00fastrias Criativas de Cabo Verde, no \u00e2mbito da programa\u00e7\u00e3o\/internacionaliza\u00e7\u00e3o do Teatro Nacional de S\u00e3o Jo\u00e3o (TNSJ):<\/p>\n<blockquote><p><i>\u201c\u2026 n\u00e3o se trata apenas de afirmar no plano internacional, mas tamb\u00e9m de desencadear uma experi\u00eancia de criouliza\u00e7\u00e3o Art\u00edstica, assente na abundante heran\u00e7a polim\u00f3rfica da l\u00edngua portuguesa.&#8221;<\/i><sup>[3]<\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>Esta fala\u00e7\u00e3o fastidiosa do TNSJ, que agora ressurge, aparentemente do nada, mas que na realidade remete para aquela vontade long\u00ednqua (2012) de um certo programador cultural em <i>&#8220;crioulizar os palcos em Cabo Verde&#8221;<\/i>, recorrendo a interpreta\u00e7\u00f5es (crioulas) dos mestres Oscar Wilde, Moli\u00e8re, Garcia Lorca e William Shakespeare.<\/p>\n<p>L\u00e1 voltamos n\u00f3s \u00e0 velha prescri\u00e7\u00e3o lusitana &#8211; primeiro os mestres (centro) e depois uns <i>salpicos polim\u00f3rficos\u00a0<\/i>que atribuem a necess\u00e1ria apar\u00eancia de multiculturalismo (periferias). Tudo isto, claro est\u00e1, sob a \u00e9gide do pretensioso Instituto Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>Afinal, chegou o tempo da verdadeira cultura\u2026 dizem <em>eles<\/em>!<\/p>\n<p>Quando <em>eles\u00a0<\/em>conseguem tomar os organismos p\u00fablicos, logo nos apercebemos que esta \u00e9 uma forma de continuar a ampliar o seu <em>Poder<\/em>, recorrendo a novas estrat\u00e9gias de reconhecimento social &#8211; S\u00e3o condecora\u00e7\u00f5es, entrevistas e at\u00e9 mesmo participa\u00e7\u00f5es em partidos pol\u00edticos. Servindo-se assim do lugar de destaque que t\u00eam nas institui\u00e7\u00f5es que tutelam para influenciar eleitores e outros subordinados a quem prometem, se eleitos, dar uma m\u00e3ozinha.<\/p>\n<p>Admitamos, \u00e9 preciso que este ciclo de supernovas, buracos-negros e estrelas-an\u00e3s que se perpetuam nos lugares acabe. \u00c9 tempo de devolver o poder de decis\u00e3o aos verdadeiros criadores, a todos os artistas, escritores, m\u00fasicos e poetas, que todos os dias se debatem corajosamente pela sua sobreviv\u00eancia intelectual com honestidade e perseveran\u00e7a. \u00c9 preciso quebrar este ciclo de heran\u00e7a gen\u00e9tica que faz com que <i>eles<\/i>se perpetuem nos palcos que n\u00e3o lhes pertencem e convertam todos os outros em silencioso e an\u00f3nimo p\u00fablico. \u00c9 preciso anunciar que\u2026<\/p>\n<p><i>\u00a0chegou o nosso tempo!<\/i><\/p>\n<p>Cidade da Praia, 15 de Setembro de 2019<br \/>\nContos da Macaron\u00e9sia<\/p>\n<p>Pedro Brito<\/p>\n<p>*originalmente publicado no Jornal &#8220;Santiago Magazine&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oFqMx1znDb0\" width=\"948\" height=\"533\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/C8B92CD7-101C-4460-A802-950AFC143F33#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>Interessante reflex\u00e3o acerca dos filhos deste \u201cnovo tempo\u201d, pode ser lida no seguinte link: <a href=\"http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2019\/04\/27\/a-porca-decadencia-das-miseraveis-elites-contemporaneas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/antoniamarques.pt\/blog\/2019\/04\/27\/a-porca-decadencia-das-miseraveis-elites-contemporaneas\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/579B32FE-719F-4A20-9785-53545158D9F2#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[2]<\/sup><\/a>Helena Roseta em &#8220;Grande Entrevista&#8221; na RTP3 &#8211; <a href=\"https:\/\/youtu.be\/FZGPIhgnY2o\">https:\/\/youtu.be\/FZGPIhgnY2o<\/a><\/p>\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/E2803ABC-F821-4552-A10B-4E10DC4F824B#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0&#8211; L\u00ea-se no programa de apresenta\u00e7\u00e3o do Teatro Nacional de S\u00e3o Jo\u00e3o (TNSJ) 2019\/2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando as estrelas est\u00e3o prestes a desaparecer, naqueles instantes finais da sua brilhante exist\u00eancia, d\u00e1-se uma enorme e resplandecente explos\u00e3o, precedida por uma escurid\u00e3o total que suga tudo que brilha em seu redor, transformando-se num buraco negro. 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