Mas como é que este bicho do mato, este voyeur do periscópio que passou
décadas a espreitar o mundo por um canudo, se tornou a "vedeta" do regime? A culpa é do
Globo d'Ouro "Coiso".
Eis que emerge das profundezas o candidato que despreza o ar puro. Se ganhar as chaves de Belém, Melo mandará selar as janelas e governará nas caves do palácio. Afinal, os salões de superfície, com o seu mofo aristocrático e luz excessiva, provocam-lhe alergia. Este é um homem que, apesar de precisar de se baixar para passar nas portas, só se sente verdadeiramente "aconchegado" quando as paredes (de aço) o apertam.
A vida de Melo não é uma biografia, é um jogo. O seu desporto favorito? A "diplomacia do esventramento". Ataca os ingleses para lhes drenar o snobismo e fura o bucho aos franceses só para lhes vazar o chauvinismo, tudo com a bênção genética de uma linhagem judaica que não veio para brincadeiras.
Mas como é que este bicho do mato, este voyeur do periscópio que passou décadas a espreitar o mundo
por um
canudo, se tornou a "vedeta" do regime? A culpa é do Globo d'Ouro "Coiso".
Atirado para o palco das futilidades civis, o Almirante descobriu que o brilho do ouro - seja ele de que "coiso" for, ilumina tão bem como um radar em noite de tempestade. Com o troféu na mão e o ego em riste, saltou da cadeira de comando diretamente para o coração das velhinhas. O seu novo combate é épico: uma guerra santa contra os fracos de espírito e, sobretudo, contra os rebeldes do lençol. Na República de Melo, a democracia é uma parada militar e o maior crime de lesa-pátria é, decididamente, não fazer a cama logo de manhã, como bom militar que foi.