A feiticeira de fonte Lima
Pedro Brito - Ilustrador
Inspiração
Não sei se cheguei a Santiago por chamamento do sol, ou pelo entoar da voz de um antepassado, perdido nos confins da história. Não sei... Quando se chega assim desprevenido pouco importa o que vamos encontrar. Apenas Estamos e Deixamos que as coisas se revelem pouco a pouco e de encontro aos nossos olhos. Uma espécie de câmara escura que gradualmente se vai preenchendo de imagens, sons, cheiros e experiências.
Sabe tão bem este estado desprevenido de viajar. Não há pressa e tudo é importante, apesar de nada nos reter, a não ser uma sensação de predestinação inexplicável.
Quando início uma viagem, a minha mala vai carregada de inúmeros materiais de registo. Página após página vou recoletando, relatos cores esboços e escritos, memórias de objetos... Lápis que começam novos e acabam pequenos, numa espécie de medidor temporal, e uma câmara fotográfica que me serve de mnemónica quando as cores e as formas ficam ténues na memória e já estou longe dos lugares que encontrei.
Fonte Lima
E porque a visita é demorada, outro espaço enche a nossa curiosidade - mulheres de todas as idades, libertas da azáfama do campo reúnem-se à volta de um forno comunitário para cozer inúmeras peças de barro - bindes, vasos e outros utensílios. Num espaço contíguo ao forno, resguardado do sol quente, a oficina é quase um lugar litúrgico. A Luz no interior das oficinas, oferecida pelas paredes de tijolo intercalado, criam um efeito de luz volumétrica muito belo. E se a luz as paredes deixam passar , uma brisa quente também... bem haja!
As artesãs não param, de pé, inclinadas sobre um vaso de barro que vai ganhando forma um após outro.
Afinal, - dizem-me - esta é uma outra forma de subsistência familiar para além do que a terra dá.

Deixo para trás as artesãs e volto, a caminhar mais para além.
Muito perto dali, o senhor SILVA insiste comigo, num crioulo que Deus ainda não me ensinou, pega-me no braço para me mostrar a sua propriedade agrícola. E que bela propriedade esta.
Um fio de água que não pára durante todo o ano, coisa que um cabo-verdiano bem sabe o quanto precioso é.
Bananeiras, mangueiras, feijoeiros e tantas outras espécies repartem entre si esta preciosa água. Mais além outras plantas, apesar de mais distantes da água mostram-se resplandecentes. Logo me esclarece o senhor Silva, mostrando-me um engenhoso meio de rega gota-a-gota.
Pergunto ao senhor Silva se alguma vez saiu de Santiago, logo me responde- "para quê se aqui tenho tudo!" Por cima das nossas cabeças ruge o som metálico de um avião.
O livro - A Feiticeira de Fonte Lima
Quando o Abraão Vicente me convidou para ilustrar um dos seus contos "A Feiticeira de Fonte Lima", já eu tinha calcorreando Fonte Lima. Quando li o manuscrito do conto, foi como se lá voltasse, mas desta vez pela escrita de quem viveu a infância neste lugar. Os lugares ganham uma nova forma, as inúmeras fotografias que fiz, os muitos desenhos que executei no meu diário visual, ganharam uma resignificação absolutamente determinante para a ilustração deste livro.
Sem nunca me distanciar da escrita de Abraão e da dimensão espacial e circunstancial do seu livro, confesso que as longas horas que passei em Fonte Lima ajudaram-me a recriar as ilustrações que concebi para este livro. Acredito que esta seja talvez a magia deste livro: as memórias vivas de quem sente este lugar desde a sua infância e do viajante desprevenido à procura de um encantamento que Fonte Lima foi (é) capaz de provocar.
Eu não acredito em feiticeiras, mas que Nha Bichencha existe, existe.
