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manifesto — contra a arca de salvação presidencial

Para os mais distraídos, para os nascidos já neste século e para todas as comunidades zeladoras de gárgulas e espantalhos, dirige-se este apelo: não se deixem enganar pela névoa do tempo.

Não existe qualquer analogia entre estas eleições presidenciais e a luta fratricida de 1986, quando o país se partiu entre o "Sapo" bochechudo — aquele democrata de gema que nutria um carinho muito especial pelos bastões da GNR na Marinha Grande — e o herdeiro das trevas conservadoras, o tal especialista em pirotecnia partidária.

Hoje, a tragédia deu lugar a uma farsa zoomórfica enfadonha. O que temos agora no terreiro é um duelo de bichanices previsíveis: de um lado, a ferocidade populista de um canídeo arraçado; do outro, a mansidão institucional de um coelhinho seguro, empenhado em convencer a fauna nacional de que a liberdade de procriação política é um dogma sagrado.

André Trulha, o canídeo do dono, ladra vitória aos sete ventos. Autoproclamado "legítimo representante da direita", sente-se investido de uma autoridade canina para morder em juízes, castrar opositores e rosnar a qualquer bicho que não partilhe o seu pedigree ou a sua cor partidária. É o cão de caça das direitas, pronto a marcar território com a agressividade de quem confunde a Pátria com uma casota.

Do outro lado, o Tóni — um coelhinho em estado de graça. Sente-se seguro na toca, amparado pelo apoio das mais rancorosas intelectualidades da fauna nacional, numa união sagrada dos "grandes democratas" que, aterrados pela raiva canídea, tentam escorar com um "Seguro" o velho edifício da alternância fofinha.

Assim, perante este cenário onde a escolha se resume a ser devorado pelo canídeo raivoso ou morrer de tédio no colo de um coelho inerte, resta-nos o soberano gesto da recusa. Não alimentaremos o bicho que ladra à democracia para morder na justiça, nem daremos cenouras à sonsa mansidão de quem está disposto a fazer pactos com os bichanos do costume.

Não serviremos de pasto ao cão, nem de palha ao coelho. Por uma verdadeira política patriótica, o nosso voto é o ruidoso silêncio da abstenção.

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