O Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa

No dia 6 de julho foi inaugurado, em Lisboa (antigo edifício da UCCLA), o Centro Cultural de Cabo Verde (CCCV).
A inauguração, que contou com a presença de diversos governantes de Cabo Verde e Portugal e outras individualidades, foi também consagrada à celebração dos 44 anos de independência de Cabo Verde.
Num púlpito, posicionado no exterior do edifício, foram proferidos os discursos da praxe, pelos representantes de ambos os estados e, assim que as intervenções terminaram, foi servida a tradicional cachupa. Simultaneamente, aproveitando a dedicação do povo ao entretenimento gastronómico, um restrito grupo de individualidades descerrou placas, cortou fitas e, já no interior do edifício, sorriu para os fotógrafos.
A festa do povo, no exterior do CCCV, foi animada com música cabo-verdiana, enchendo de morabeza o (já pouco típico) bairro lisboeta.

Inauguração do Centro Cultural de Cabo Verde em julho de 2019

Após o frenesim do evento e azáfama inerente à partilha das fotografias tipo “imprensa cor-de-rosa” nas redes sociais, terá chegado o tempo de, serenamente, refletirmos acerca da criação do CCCV em Lisboa, bem como sobre as motivações e objetivos que norteiam este projeto cultural.

É essencial Cabo Verde ter um centro cultural em Lisboa?

A resposta é evidente – Sim! Inequívoca é também a responsabilidade que se exige aos decisores culturais e políticos na gestão de um espaço como este, sob pena de, num eventual fracasso, prejudicarem a imagem de Cabo Verde, dos seus criadores/artistas e demais atores envolvidos.

É fundamental que, desde os primeiros dias da sua existência, a instituição dignifique a missão a que se propõe, apresentando uma estratégia robusta, capaz de traduzir a diversidade das expressões identitárias da cultura de Cabo Verde.
Espera-se, por isso, que a equipa de gestão do CCCV promova um efetivo conhecimento, através de uma aposta sólida na investigação, pesquisa e divulgação dos reais valores da cultura cabo-verdiana e do seu posicionamento no mundo.

Caso essas premissas não sejam devidamente acauteladas, o CCCV poderá correr o risco de (como sucede com outros espaços culturais em Lisboa) se transformar em mais um “palco” de vedetas disfuncionais com apelidos sonantes, mas que, efetivamente, pouco representam o verdadeiro pulsar criativo da cultura cabo-verdiana.
Outro grave risco, caso falhe a missão identitária do CCCV, será o de se ver convertido em salão reservado ao convívio das elites e patrícios que se movem pela capital lusa (alguns com honrarias de estado), apregoando a beleza dos “ventos mornos”.

Estranha-se que, até à data, não tenha sido divulgada informação sobre a missão, a equipa de gestão, os estatutos, etc. Pelo contrário, as raras e dispersas declarações sobre o assunto, proferidas pelos representantes de estado, governantes e suas assessorias, que têm vindo a público, são até reveladoras de algum desnorte.

“Já temos a equipa identificada, mas ainda não está completamente concretizada, porque estamos nessa fase de profissionalizar, mas já temos um perfil definido (de quem deverá gerir), que terá que ser alguém com uma vertente profissional, digamos, muito grande”, Eurico Monteiro, Embaixador de Cabo Verde em Portugal.

Igualmente inusitada foi a argumentação apresentada, nos discursos inaugurais, para a pertinência da criação do centro. De acordo com as declarações proferidas, o espaço representa, de alguma forma, a recuperação do antigo triângulo constituído pelas ruas de São Bento, Poço dos Negros e Poiares de São Bento, conhecido bairro da comunidade cabo-verdiana, antigo “porto de abrigo” da vaga migratória dos anos 70, que ali se fixou.

Até poderia ser uma argumentação plausível se, no decorrer da última década os lisboetas não tivessem assistido à descaracterização identitária dos bairros, em prol do reforço da indústria turística. A comunidade cabo-verdiana há muito não vive neste triângulo, há muito tem sido empurrada para os inúmeros subúrbios da cidade.

Infelizmente o CCCV não será suficiente para inverter o programa de turistificação da cidade. Bem pelo contrário, a sua possível inscrição (promessa de Fernando Medina) nos famigerados roteiros turísticos da cidade, poderá até ser desprestigiante para os artistas/escritores/criadores que participem neste projeto, seja qual for a sua nacionalidade. Pois, é apanágio das cidades gentrificadas industrializar a criação artística, com intuito de a converter numa espécie de cultura à lá carte.

Insossas e pouco esclarecedoras foram as declarações da ministra da cultura portuguesa. No seu breve e ineloquente discurso, apenas sublinhou o facto de o novo CCCV estar próximo da Casa Amália e, desta proximidade (afirmou a ministra) contribuir para o sucesso da candidatura da morna a património imaterial da humanidade.
Esperava-se mais entusiasmo e compromisso institucional da ministra que tutela o sector da cultura. Infelizmente, a sua prestação não foi surpreendente, deparamo-nos com uma ministra em fim de ciclo governativo e a cumprir o protocolo. Lamentável.

Sublinha-se, com agrado, as declarações do Senhor Ministro da Cultura de Cabo Verde pelo facto, de salientar ser propósito do seu ministério, fazer deste espaço um elemento de proximidade com as comunidades cabo-verdianas, residentes em Portugal. São conhecidas as suas declarações acerca da diáspora cabo-verdiana, esquecida e tantas vezes quase abandonada pelos decisores políticos do seu país.
Esperamos que este seja o leitmotiv que estabelece, ao nível cultural, a tão desejada proximidade com as comunidades, sem distinção social.

Menos felizes foram as declarações com as quais pretendia enaltecer o projeto, referindo que o CCCV é o” primeiro centro cultural de um pais africano bem no coração de Lisboa e às portas da Europa”.
Esta lógica centralista e de posicionamento geoestratégico em pouco ou nada contribui para o reconhecimento cultural de um povo. A não ser que este Ministério conceba a cultura como um bem transacionável e este centro cultural como uma plataforma de mercantilização pseudocultural, integrada numa indústria re(criativa) ao serviço do mercado e das lógicas de consumo, tão bem protagonizadas pela gentrificação das cidades. Se assim for é lamentável – A comunidade cabo-verdiana, e portuguesa, dispensam (mais) um projeto comercial assim.

O que se espera deste projeto cultural?

Após a leitura de algumas notícias, veiculadas nas redes digitais e outros órgãos de comunicação, impõem-se algumas questões que, certamente, gostaríamos de ver esclarecidas:

  • O que se entende por “cedência” do espaço, onde está instalado o CCCV, pela Câmara de Lisboa? Que contrapartidas exige a autarquia lisboeta a Cabo Verde?
  • Essa “cedência” tem algum prazo de validade?
  • Que critérios vão ser utilizados na seleção da “equipa” que vai gerir este espaço cultural?
  • Foi aberto algum concurso público para a escolha e contratualização dos técnicos que têm a seu cargo a remodelação do imóvel?
  • Foi aberto algum concurso público para a realização da identidade Visual do CCCV?
  • Quando serão conhecidos a missão e os estatutos do CCCV?
  • Quando será divulgado o seu programa operativo?

Perguntas pertinentes para as quais se esperam céleres respostas!


Julho de 2019
(Publicado no Jornal  “Santiago Magazine” em 17 de julho de 2019)
#contosdamacaronésia

Ilustração animada

As vissicitudes e idiossincrasias de uma Europa fingida… mais a sul

 

Europa Sabi!

“Ao abrigo do protocolo, perto de 70 embarcações da UE podem pescar nas águas territoriais de Cabo Verde, mas a diplomata está segura de que não existirá competição com os pescadores da pesca artesanal, cujos barcos são de pequeno porte e nunca vão além da distância autorizada às grandes embarcações.“

Declarações da Embaixadora da União Europeia em Cabo Verde, ao jornal Expresso das Ilhas.

28 de abril d 2019

https://expressodasilhas.cv/economia/2019/04/28/verbas-superiores-no-acordo-de-pescas-uecabo-verde-seriam-irrealistas/63581

 

(animação para breve… fica atento 🙂 )

 

Sonhos, pelo Buraco da agulha

Vamos falar da reciprocidade na isenção de vistos entre a Europa e Cabo Verde.

“No início, a União Europeia concordou, mais tarde, um país que nunca foi identificado (as autoridades cabo-verdianas desconfiam da França) acabou por vetar este entendimento, com o argumento que a percentagem de retorno de cabo-verdianos era baixa quando pediam, por exemplo, um visto de férias. A crise, a partir de 2009, também veio esfriar o interesse europeu, principalmente porque os países da UE começaram a temer que Cabo Verde fosse usado como um trampolim por parte dos africanos do continente.”
Toda a notícia…

Mais histórias em “contos da Macaronésia” —>

Macero, o dissidente

“Mas, então, Macaronésia foi presa fácil doutro mal. Reinava do lado sul Macero, e do lado norte Micanor (hoje diríamos: reinava, a Barlavento, Micanor e, a Sotavento, Macero). (…)

Uma indiscritível erupção subindo do fundo do mar da baía originou este rochedo, que se ergue imponente no meio da baía. Asseguram os anciãos que os deuses quiseram desse modo sepultar o corpo insepulto de MACERO., o dissidente.”

Contos da Macaronésia, G.T. Didial