Destino

O sol vai alto, todos os olhares estão agora no destino – Santo Antão.

Porto Novo ali ao fundo.
É curto o cais! – dizem…
Esperamos que outros barcos zarpem. Ficamos ao largo, motores em marcha lenta, ordena o capitão. Esperamos até tomarmos o cais.
Perfilam-se as Hiaces no muro à espera de quem chega, e depressa deseja partir para outras paragens.
Pois não é esse o meu destino. Ficarei por Porto Novo, porque quem aqui vive também merece.

Em poucos minutos o frenesim do cais dá lugar a uma surpreendente acalmia. Só ficou quem por aqui vive ou tem negócios a tratar.
Tempo de retemperar forças com um típico pastel de milho e um saboroso café da avó, num desafogado pátio coberto do sol e vento.

A hora de minguarda aproxima-se… Ficarei com as ruas cidade só para mim. Erguem-se as casas, fecham-se as portas, fogem os mininus para o aconchego dos seus lares.

Se nas ruas, por esta hora impera o silêncio, nas suas casas as gentes abrigadas do sol, e do vento, falam bem alto.

Parecem casas falantes, abrigos de vozes, peitos de ansiedades e portas de gargantas secas…

Mar D’Canal

Reina um profundo silêncio no convés do barco, em contraste com o buliço, e a quase gritaria dos momentos que antecederam ao embarque. Mal se cortam as amarras, os passageiros entregam-se a um silêncio de quase reverência e respeito pelas forças da natureza.

Para trás fica São Vicente com o sol a despertar ali por trás do Monte Verde. 

O mar, apesar de estarmos abrigados pelo olho do vulcão submerso, está encorpado.

Entre preces, enjoos e turistas agitados, ouve-se a voz grave do motor que nos empurra pelo “Mar D’Canal”.

Ao largo, outra embarcação toma a nossa atenção.  Vai veloz, quase fantasma em direção a terra.

Tem nome de casa o último poiso de pés ao largo de Mindelo. Ilhéu, casa dos pássaros, que procuram repouso nas suas longas viagens pelo oceano. Dizem que é o dente de um monstro bom que vive nas profundezas do canal.

O sol impiedosamente toma conta do céu e a viagem continua.

Medos

Aquele monte.

que nos protege do vento e nos faz sombra ao entardecer, 

Aquele monte 

que rasga o céu e impede o mar de devorar a terra.

Aquele que guarda os medos e os sonhos dos mininus de Salamansa.

O medo por aqui, não tem candeias nem faz sombra, 

Não se revela à noite

Nem se ouve com o vento.

O medo não tem sombra,

E vive debaixo do pés.

Espera, foge, sonha…chegou a hora de minguarda.

Tréguas

Pouco me importa esta azáfama que Mindelo vive por esta altura do ano. O samba toma conta da música, veste-se de uma nova roupagem mais ou menos crioula e transforma-se num brasilim forçado.

O que me atrai sim, são os rostos desprevenidos que, no meio de tal alvoroço, se esquecem de guardar as suas expressões, de refrear as suas emoções, tornando-se alvos fáceis da minha objetiva  e outros meios de registo.

Curiosamente, não vejo rostos felizes por tamanha cor e dimensão dos carros alegóricos e dos ricos tecidos dos figurantes. Apercebo-me sim de um certo queixume quase silencioso que deu tréguas até ao enterro do carnaval.

São rostos inebriados por tamanha dimensão e cor que se rendem e se deixam tomar, até que a noite os vença de cansaço.

 

 

 

Espelhos da alma

Eis algumas ilustrações dos governantes CV. Algumas imagens deste projeto.

http://www.pedrobrito.eu/illustrations2.html#topo