Macero, o dissidente

“Mas, então, Macaronésia foi presa fácil doutro mal. Reinava do lado sul Macero, e do lado norte Micanor (hoje diríamos: reinava, a Barlavento, Micanor e, a Sotavento, Macero). (…)

Uma indiscritível erupção subindo do fundo do mar da baía originou este rochedo, que se ergue imponente no meio da baía. Asseguram os anciãos que os deuses quiseram desse modo sepultar o corpo insepulto de MACERO., o dissidente.”

Contos da Macaronésia, G.T. Didial

Ali para os lados onde a Ponta tem Sol

Fica ali para os lados onde o sol tem ponta,
e os barcos são desejos,
de muitos.

Fica ali para os lados onde o sol tem ponta,
e a terra é lavrada por Deus,
e a voz o único caminho do povo.

Fica ali para os lados onde o sol tem ponta,
e os desejos são as asas de ninguém.

 

Ponta do Sol

Europa Mon Amour

Os Homens de azul
Saem lavados e aprumados,
a norte.
chegam vorazes traiçoeiros e agiotas,
ao sul.

Trazem malas de cheias de utopias e promessas vãs.
Levam chão, mar e alma para alimentar o secular insaciável desejo de poder dos Homens,
a norte.

Quando tocam chão calvo, disfarçam-se de estatuas, monumentos e memórias de tempos recuados,
procuram altares, tronos e montanhas, escondem-se na palavra, refugiam-se no fonema

e esperam…
esperam…

Somos irmãos, sussurram ao vento.
Quase convencem.

Pai,
a norte.

Padastro,
a sul.

 

Mitos da macaronesia

 

Retorno

Quando as sombras voltam a ser gente, logo, logo, as ruas enchem-se de gente e quase tudo converge para o cais. Mar D’Canal parte às 16 horas de volta para Mindelo. Última ligação neste dia.

Voltam as Hiaces repletas de turistas de pés cansados, tez queimada, semblante curvado de muito caminhar.

Enche-se a rua de rabidantes de apregoar meigo – “queijo d’terra, tomates, maças miúdas, inhames, e mel de cana…”

Destino

O sol vai alto, todos os olhares estão agora no destino – Santo Antão.

Porto Novo ali ao fundo.
É curto o cais! – dizem…
Esperamos que outros barcos zarpem. Ficamos ao largo, motores em marcha lenta, ordena o capitão. Esperamos até tomarmos o cais.
Perfilam-se as Hiaces no muro à espera de quem chega, e depressa deseja partir para outras paragens.
Pois não é esse o meu destino. Ficarei por Porto Novo, porque quem aqui vive também merece.

Em poucos minutos o frenesim do cais dá lugar a uma surpreendente acalmia. Só ficou quem por aqui vive ou tem negócios a tratar.
Tempo de retemperar forças com um típico pastel de milho e um saboroso café da avó, num desafogado pátio coberto do sol e vento.

A hora de minguarda aproxima-se… Ficarei com as ruas cidade só para mim. Erguem-se as casas, fecham-se as portas, fogem os mininus para o aconchego dos seus lares.

Se nas ruas, por esta hora impera o silêncio, nas suas casas as gentes abrigadas do sol, e do vento, falam bem alto.

Parecem casas falantes, abrigos de vozes, peitos de ansiedades e portas de gargantas secas…