O Padrinho

Há um imenso mar que separa a fria cidade de Viseu, em Portugal, e a luminosa cidade de São Filipe, na ilha do Fogo em Cabo Verde.

Para além do passado, tantas vezes infeliz e doloroso que as une, outros acontecimentos mais recentes aproximam estas duas cidades. É disso exemplo o acordo assinado em 2018 entre o Ministério da cultura de Cabo Verde e a Câmara Municipal de Viseu. 

Como é usual em todos os acordos institucionais, as partes envolvidas estabelecem um conjunto de acordos e parcerias que, ambos, se comprometem cumprir.

Podemos percecionar a expressão de um desses compromissos nos Festivais Literários “Tinto no Branco” e “Morabeza“, que se realizaram em Viseu e, este ano, na Ilha do Fogo, respetivamente.

Apesar da atmosfera de secretismo que envolve a realização, financiamento e programação destes eventos, ainda que vago, é público o compromisso assumido por Abraão Vicente, Ministro da Cultura de Cabo Verde – “Cabo Verde manda escritores daqui, e vocês mandam escritores daí “. Entre um escritor e outro livro, haverá espaço para cardápios e “chefs Michelin”, todos juntos, em roda de um grande tacho, irão cozinhar em lume brando outros festivais, o brinde será com vinho do Dão e, se o vento estiver de feição, com o néctar de Chã das Caldeiras.

Agora, que mais umas temporadas de festivais chegaram ao fim, impõem-se uma reflexão acerca das efetivas repercussões destes dois eventos literários, percebendo de que forma contribuíram para aquilo que os decisores políticos, sempre que questionados acerca da serventia de um festival literário? têm por hábito dizer – “Promoção da cultura e do livro, sem esquecer a Indústria das ideias criativas.”

Para não estender em demasia este espaço de reflexão, achei por bem dividir este artigo em quatro tópicos:

  • A estrutura dos festivais literários;
  • Os escritores;
  • A produção dos eventos;
  • Conclusões e algumas interrogações.

 A estrutura dos festivais literários – Morabeza e Tinto no Branco

Os modelos de Festivais Literários, promovidos por Cabo Verde e Portugal, apresentam uma estrutura aparentemente simples, constituída pelos: promotores dos eventos (autarquias ou, no caso de Cabo Verde, o ministério da cultura), escritores convidados, patrocinadores e uma empresa produtora (comum aos dois festivais).

Esta é a “face visível” dos eventos. Pelos bastidores, deambulam outros personagens e com eles a real alma dos festivais – nas palavras descaradas de Jorge Sobrado (que acumula o cargo vereador da Câmara Municipal de Viseu e Diretor da Associação Marca Viseu), descritos como os padrinhos dos festivais(2)

Nestas duas festas do livro vagueou pelos corredores o obreiro/padrinho de todos os festivais literários, o importante moderador/padrinho de conversas banais, o protetor/padrinho da coisa literária lusófona, que se estende de Macau a Guadalupe… Adivinhem lá?! Francisco José Viegas.

Poucos são os festivais literários cuja organização se atreve a desconvidar o ilustre personagem.

Francisco José Viegas. Poucos são os festivais literários cuja organização se atreve a desconvidar o ilustre personagem.

Os escritores

Abençoados por esta parceria transatlântica, nestes dois últimos anos foram, entre outros, os escritores Germano de Almeida e Samuel Gonçalves.

Germano de Almeida. Escritor cabo-verdiano, homenageado com o prémio Camões, que não esteve presente na edição de 2018 do festival em Viseu, desta vez não falhou. Foi assim possível perguntar ao ilustre convidado o que tem de importante a obra de Baltasar Lopes – “Chiquinho”, que o tenha levado a recomendar a sua leitura, em jeito de prova de leitura, a todos os governantes cabo-verdianos, antes de assumirem os cargos governativos

A resposta desse ilustre convidado foi esclarecedora e diplomaticamente objetiva – O Chiquinho é obra maior da literatura cabo-verdiana. É a génese de um povo sofrido… 

Os presentes aproveitaram ainda a oportunidade para solicitar a Germano que, na mesma linha de raciocínio do que havia enunciado na ilha do Fogo, recomendasse uma obra literária, desta imensa lusofonia, para “leitura obrigatória” a todos os governantes portugueses?

A resposta foi clara, curta e bastante objetiva – “Os Maias”, recomendou. Tirem as vossas conclusões…

Samuel Gonçalves, médico, escritor, natural da ilha do Fogo, romancista e contista. Premiado pela muy reputada associação de beneficência e caridade ultramarina, Instituto Marquês Valle Flôr. Curiosamente, uma das poucas instituições parceiras do Instituto Camões, sabe-se lá porquê…

Samuel Gonçalves participou no Morabeza 2019 na sua terra natal, e honrou-nos com a sua presença em terras de Viriato. Caso se cumpra a tradição costumeira destes festivais, é bem provável que Samuel venha a fazer parte do perene grupo de escritores habitués destes encontros de “amigos” das letras. Seja bem-vindo Samuel.

Pena que os viseenses e os promotores do evento (à excepção de Jorge Sobrado) não tenham marcado presença nesta conversa literária, posso arriscar dizer, das mais interessantes e genuínas (coisa tão rara nestes eventos literários) que passou pelos festivais, se calhar por isso mesmo a menos participada! Samuel Gonçalves tem boas razões para escapar ao grupo dos entediantes relatores de estórias!

Ao contrário do que seria suposto, e tratando-se de um festival regado com vinhos  e outras iguarias, a conversa sobre o café e o vinho do Fogo, não teve direito a aroma ou brinde com os produtos oriundos da terra do vulcão. Infelizmente, o momento literário foi pretexto para se promover mais uma marca de Dão. Perdeu-se o momento e a oportunidade para dar a conhecer um vinho extremo, produzido na em Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo – milagroso néctar, para quem já teve oportunidade de o provar! Talvez se tenha perdido também parte do compromisso…

O evento decorreu com a pasmaceira habitual, honra seja feita aos participantes do costume, alguns com cachê bem elevado, que, a título de uma conversa sobre literatura foram promovendo os seus livros, oferecendo-nos aqui e ali as costumeiras conversas banais e rotineiras do dia-a-dia.

Produção e organização dos eventos literários

Por detrás de todos estes encontros festivaleiros está uma lucrativa e poderosa produtora de eventos literários lusófonos. “Booktaylors/BookCompany”- assim é conhecida no mundo dos negócios e espetáculos. É uma empresa-sombra, que tem sido responsável por todos os festivais Morabeza e, com certeza, enquanto Abraão Vicente for ministro, organizará todos os próximos festivais literários em Cabo Verde.

Acerca da Booktaylors/TheBookCompany

A Booktaylors/TheBookCompany é uma empresa de agenciamento de escritores e produtora de festivais literários, desenhados à medida dos interesses dos seus clientes. Mas não será certamente uma empresa qualquer, pois desde cedo, ainda a sua presença hipermédia era apenas um blog, já contava com o apoio e apreço de Francisco José Viegas (outra vez o padrinho). Poucas são as empresas que podem contar, no início da sua atividade comercial, com um padrinho (ex-secretário de estado da cultura na governação Cavaco Silva) deste gabarito.

Em Portugal, a Booktaylors está envolvida na organização de quase todos os festivais literários que ocorrem desde 2011. Todos os contratos públicos que celebrou com o estado português (câmaras e outras instituições públicas) foram estabelecidas por ajuste direto, num total de 850 000 euros. Que se saiba… Num mercado livreiro em crise, onde os responsáveis pelo sector dizem passar sérias dificuldades financeiras, este valor é obra!

A estratégia de negócio da Booktaylors/TheBookCompany é muito simples e quase sempre bem-sucedida e os clientes quase sempre os mesmos – autarcas ambiciosos. 

Primeiro “convence” o cliente sobre os benefícios da festa literária, para a divulgação das comarcas; depois persuade o governante, a propósito da importância do livro como objeto cultural, e de quanto tudo isso pode ser excelente para a projeção do seu ego e consequentes dividendos políticos. 

Jorge Sobrado e Abraão Vicente. ““Cabo Verde manda escritores daqui, e vocês mandam escritores daí”

Seguidamente, definem a carta dos convidados, em função de indicadores que pouco ou nada têm que ver com literatura, assim, prometem aos escritores mais humildes, a promoção dos seus livros e a abertura a novos mercados; e aos escritores mais badalados, a quem Jorge de Sena se referia como a “literocambada”, oferecem cachês à medida dos talentos festivaleiros. 

A todos é garantido palco, plateia, oportunidade para exorcizar almas e egos, hotel e comes-e-bebes para que sintam em casa. Aos munícipes e contribuintes a Booktaylors/TheBookCompany reserva uma generosa lista de atividades: encher plateias, participar em workshops de escrita amestrada, ou comprar uns livritos na feira dos títulos malparados das editoras!

O que torna estas lucrativas iniciativas, engendradas por uma empresa comercial privada do sector livreiro, alvo de um rol de complexas questões? O seu financiamento, pois é nas receitas e nos avultados orçamentos que as esferas se tocam, o público vira privado e o privado vira lucro! O dinheiro utilizado para pagar a fatura destes eventos advém do erário público, ou seja, o cidadão contribuinte, que assiste mudo e calado, embora nem sempre seja convidado para a festa é chamado a financiar a empresa e consequentemente a promoção dos escritores, governantes e outros oportunos convidados.

Conclusões e algumas interrogações

Em Portugal, os festivais literários com mais de 20 anos de existência, estão hoje reduzidos a meros palcos, utilizados para exacerbar egos de escritores atormentados, para reciclar a imagem de políticos e governantes, para promover figurinhas e vedetismos e fazer crescer os proveitos económicos de certas empresas produtoras de eventos (ao serviço das poderosas editoras), que cobram avultadas comissões. Ao público cabe sempre o mesmo destino – ouvir, sem direito a reclamar, horas de conversas sem rumo e pagar as contas.

A justificação para a criação destes eventos, apresentada pelos governantes é sempre a mesma lenga-lenga, que já não convence ninguém – descentralizar a cultura, promover hábitos de leitura, criar profundas e duradouras mudanças no sector cultural, potenciar as qualidades das províncias na promoção do livro e, num discurso de inspiração neoliberal, transformar a cultura numa indústria lucrativa e auto-sustentável. 

Tretas, que não se traduzem em qualquer transformação séria no panorama cultural do país.

Em Cabo Verde, não fosse o senhor ministro da cultura Abraão Vicente um bom aluno dos negócios lusófonos, o discurso público utilizado para justificar a realização dos festivais literários é exatamente o mesmo que é usado em Portugal. O que no mínimo é espantoso! Senão vejamos, que hábitos de leitura pode promover um festival literário em São Filipe (ilha do Fogo) onde não existe uma biblioteca pública? Que promoção do livro pode fazer um festival literário no Fogo, onde não existe qualquer livraria? Que descentralização cultural é esta e com que propósito, se leva um cozinheiro, autarcas viseenses e um punhado de escritores famosos, para um pátio elevado de um hotel em chã das caldeiras, para onde a população escolar e os munícipes não são convidados? Que parceria é esta, onde a propósito dos compromissos assumidos para promover duas regiões, se destaca apenas a oportunidade para poucos justificarem as suas agendas políticas? Que impacto poderá ter um festival literário para a generalidade da população cabo-verdiana, quando se desconhece a estratégia, o investimento em logística, a capacitação de recursos humanos para promover hábitos de leitura? O que poderá um Festival Literário trazer a um país onde o ministério da cultura e o ministério da educação vivem de costas voltadas? E por fim, e não menos importante, quanto custa ao erário publico cabo-verdiano a realização destes festivais.

Em Portugal já todos percebemos as motivações que se escondem por detrás destes festivais literários. São inúmeras as notícias e reflexões acerca destas festividades, que nos últimos tempos se vêm acrescidas de comida e regadas com muito vinho. Combinações perfeitas dizem os mordomos, padrinhos e governantes!

Perante estes factos, possíveis de comprovar publicamente, coloca-se a questão – será fado, será morna do povo cabo-verdiano, ter de repetir a receita, sabendo de antemão que estes eventos festivaleiros em nada contribuirão para o enriquecimento cultural do país? 

Que esperar destas soluções milagrosas, se até o senhor ministro da cultura Abraão Vicente, aparenta estar vencido quando assume que a reduzida participação dos cidadãos nestes eventos se prende com o facto das escolas e universidades não estarem “engajadas” nestes eventos!

Deve levar-nos a todos a concluir que haverá com certeza outras motivações para além destas anunciadas benfeitorias culturais. O tempo o dirá.


Última nota:

Quem passou pelo Festival Tinto no Branco, pôde comprovar in loco que aquela promessa de levar produtores e vinhos de Chã das Caldeiras a Viseu, não passou disso mesmo – uma promessa!

(1) Jorge Sobrado, Vereador da Cultura da câmara Municipal de Viseu. Convidado de Honra no Festival Morabeza 2019,  honrando assim o protocolo de cooperação assinado em 2018 entre o governo de Cabo Verde e a cidade de Viseu.

(2) Não confundir com o outro Sobrado II, Diretor do Teatro Nacional de São João, responsável neste momento pela internacionalização do teatro portuense no mundo, pelo caminho, contamos que dê uma mãozinha na crioulização do teatro, tema para uma outra crónica em breve.

Teaser

Publicado no jornal “Santiago Magazine” em novembro de 2019

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