Hora di Bai

Há aqueles que pairam, e os que afincam.
Os que pairam, mais tarde ou mais cedo precisam de terra. Como temem serem confundidos com o povo, escolhem um ponto alto, juntam-se entre si esperam a oportunidade para voltar a pairar. Algumas aves são companhia dos pairadores, como abutres.
Já os que afincam, apesar da sua condição de cravado na terra, são paradoxalmente Homens livres. A sua condição de afincado é tão somente fruto da sua perseverança. A terra não é para eles uma prisão mas sim uma a sua âncora.
Por vezes os pairadores (quando a vida não lhes corre de feição) errantes, descem dos céus para se confundirem com os afincados. Quando chegam, constroem narrativas, falam das agruras do seu passado, culpam o outro pelo seu do infortúnio. Objetivamente o que querem é tão somente dizer que são gente brotada da terra.

Os afincados com olhar de soslaio, já nem estranham de figuras assim. Todavia, quando o disfarce dos pairadores é exímio, os afincados sabem como identificar um impostor: Dão-lhes a provar água do mar. Se lhes souber a sal, são concerteza gente sem pátria. Mas se o gosto for de lágrimas, mesmo que nascidos noutra terra, são de certeza Homens livres.
A condição de afincado não é eterna, bem pelo contrário. Triste sina destes homens livres. A terra é cheia de humores, por vezes expressa-se com uma imensa seca, ventos, escassez de água, aridez… só para referir os mais relevantes.
Em tempos assim, os afincados perdem a sua condição, e partem. Distanciam-se dos abutres que pairam, e (re)encontram outros lugares.
São homens e mulheres que se expressam em voz alta e que todos os dias, mesmo sem o saber, fazem a verdadeira história do seu povo.

Hora do Bai – Hora de Partir

Esta obra gráfica, é uma homenagem àqueles que, apesar da perseverança, da luta diária pela sobrevivência das suas famílias, a terra teima em não segurar segurá-los.
São homens a quem que o destino (fé, diz-se por aquelas paragens) deu o engenho para construir as suas próprias asas e quando a hora di bai chegar vooam sem olhar para trás não olham para trás.

Santiago, 2017

Memórias de viagem

A Vila do Tarrafal em Santiago, como a maior parte das pequenas vilas e aldeias de Cabo Verde, é profundamente religiosa. O momento alto desta expressão acontece nas celebrações de Nhu Santu Amaru. Festa antiga que muito orgulha os Tarrafelenses.
Bem cedo, a Vila enche-se de gente tal é a importância desta celebração.

O povo de roupas aprumadas, defende-se do sol impiedoso como pode – guardas sois, lenços na cabeça e à sombra das árvores.
A qualquer momento surge de um canto da vila a procissão e com ela os homens de fé, vestidos de branco e cheios de ornamentos de valor simbólico.
Todos estão em silêncio e deixam-se guiar pelos rituais seculares da celebração.

Reconheço alguns rostos. São  homens que dias antes estavam na praia com os seus barcos cheios de peixe, cansados de mais uma faina, estão agora por aqui e além nas suas preces.
Estão também mulheres em silêncio, que ontem gritavam alto, regateando preços, escolhendo um punhado de peixes para alimentar suas famílias.

Vila do Tarrafal, Santiago, 2017


Ilustração “Epifanias” -> e respetiva sinopse