Chegou o tempo Deles!

Quando as estrelas estão prestes a desaparecer, naqueles instantes finais da sua brilhante existência, dá-se uma enorme e resplandecente explosão, precedida por uma escuridão total que suga tudo que brilha em seu redor, transformando-se num buraco negro.

Esta poderia ser uma excelente caracterização do percurso de vida da maioria das figuras públicas da nossa sociedade. No final das suas vidas reforçam a sua presença nos media, com entrevistas autobiográficas, mais ou menos saudosistas, em que ficamos a saber como se relacionavam com os seus familiares e outras costumeiras que pouco interesse têm para a memória histórica e colectiva do país.

As entrevistas servem também para que possam expor os seus surpreendentes planos para o futuro. Bom exemplo de isso é a afirmação de Helena Roseta, quanto às suas ocupações familiares e do envolvimento da sua filha Filipa Roseta, cabeça-de-lista por Lisboa nas próximas eleições legislativas em Portugal.

“Chegou o tempo Deles!”[1]

Quem são “eles” afinal?

Eles são as próximas estrelas deste “novo tempo”. São os filhos e os netos dos obreiros do passado. São as novas estrelas repletas de ambições governativas e outras de domínio público. São estrelas que já brilham em partidos políticos, autarquias, centros culturais, ministérios e secretarias de estado.[2]

 

Alguns de eles viveram a sua adolescência na sombra do herói libertador; outros cresceram em famílias angustiadas e com medo da sua própria sombra.

Perante as confissões e revelações das estrelas em fim-de-vida, e porque o futuro deste país passará inevitavelmente por “eles”(pelo menos é essa a vontade descarada dos seus progenitores) impõem-se que se faça uma reflexão acerca “deles“.

Quando eles chegam à idade adulta (geralmente entre os 30 e 55 anos de idade) levantam a voz e proclamam:  “Tenho de ser digno dos genes que herdei.”, “O meu pai foi o arquitecto de Abril”, “minha mãe, humilde doméstica, sempre ajudou os pobres”, “apesar de sermos muito ricos, nunca deixamos de ajudar quem precisava”, “sou de esquerda, como o meu pai me ensinou…”, “antigamente quando o meu pai era dono disto tudo, as coisas eram bem diferentes…”, “é preciso “rotatividade” e “outras caras”.

Ficamos assim a conhecer o que pensam os directos herdeiros das estrelas em fim-de-vida.

 

Apesar das distâncias familiares e das distintas mesclas ideológicas em que foram educados, esta geração de ilustres herdeiros, têm um traço em comum – partilham o mesmo substantivo – “Poder”. Uns acham legítimo ter Poder, porque são os directos descendentes dos revolucionários, outros porque o Poder é secularmente seu por herança genética.

Importa então saber, o que fazem com o Poder que têm e como este se expressa na vida colectiva.

A maioria das vezes eles ocupam cargos de direcção em instituições públicas. Quando estes estão ocupados por outros da sua linhagem, (também eles amigos do papá e (ou)  companheiros de luta revolucionária da mamã), esperam pacientemente pela resignação e, de uma só assentada tomam os seus lugares.

Outras vezes, já com muita experiência adquirida enquanto líderes de uma qualquer federação académica, ingressam apressadamente num partido político e num rápido piscar-de-olho estão no Parlamento, podendo assim partilhar o automóvel com os seus familiares nas viagens de regresso a casa.

Afinal, “chegou o tempo deles!”

O leitor poderá neste momento pensar que esta realidade de Portugal do século XXI, pouco ou nada tem a ver com Cabo Verde.

Desengane-se. Pois eles há já algum tempo que, de malas e bidons, rumaram às ilhas, com uma incomensurável vontade de “ajudar”. Levaram consigo “crowdfundings”, dissertações caóticas, e outras panaceias com que ampliam um crónico e paralisante assistencialismo.

Muitos de eles, acabam por voltar a casa dos seus progenitores. Outros ficam pelas ilhas, ocupando as cátedras do poeta lusitano, com privilégios e honrarias diplomáticas.

São eles que nos últimos anos têm estabelecido as pontes que ligam Portugal e Cabo Verde; são eles que decidem muitas das directrizes e programas culturais que se estabelecem entre os dois países; são também eles que decidem o que é, e o que não é cultura identitária da lusofonia. Os discursos e os programas de cooperação assinados entre estes dois países nos últimos anos, parcerias e intercâmbios culturais, na realidade acabam por funcionar como passarelas para internacionalização dos seus “egos”.

Veja-se o mais recente exemplo de cooperação assinado entre o Ministério da Cultura Português, e o Ministério das Indústrias Criativas de Cabo Verde, no âmbito da programação/internacionalização do Teatro Nacional de São João (TNSJ):

“… não se trata apenas de afirmar no plano internacional, mas também de desencadear uma experiência de crioulização Artística, assente na abundante herança polimórfica da língua portuguesa.”[3]

Esta falação fastidiosa do TNSJ, que agora ressurge, aparentemente do nada, mas que na realidade remete para aquela vontade longínqua (2012) de um certo programador cultural em “crioulizar os palcos em Cabo Verde”, recorrendo a interpretações (crioulas) dos mestres Oscar Wilde, Molière, Garcia Lorca e William Shakespeare.

Lá voltamos nós à velha prescrição lusitana – primeiro os mestres (centro) e depois uns salpicos polimórficos que atribuem a necessária aparência de multiculturalismo (periferias). Tudo isto, claro está, sob a égide do pretensioso Instituto Camões.

Afinal, chegou o tempo da verdadeira cultura… dizem eles!

Quando eles conseguem tomar os organismos públicos, logo nos apercebemos que esta é uma forma de continuar a ampliar o seu Poder, recorrendo a novas estratégias de reconhecimento social – São condecorações, entrevistas e até mesmo participações em partidos políticos. Servindo-se assim do lugar de destaque que têm nas instituições que tutelam para influenciar eleitores e outros subordinados a quem prometem, se eleitos, dar uma mãozinha.

Admitamos, é preciso que este ciclo de supernovas, buracos-negros e estrelas-anãs que se perpetuam nos lugares acabe. É tempo de devolver o poder de decisão aos verdadeiros criadores, a todos os artistas, escritores, músicos e poetas, que todos os dias se debatem corajosamente pela sua sobrevivência intelectual com honestidade e perseverança. É preciso quebrar este ciclo de herança genética que faz com que elesse perpetuem nos palcos que não lhes pertencem e convertam todos os outros em silencioso e anónimo público. É preciso anunciar que…

 chegou o nosso tempo!

Cidade da Praia, 15 de Setembro de 2019
Contos da Macaronésia

Pedro Brito

*originalmente publicado no Jornal “Santiago Magazine”.

 


[1]Interessante reflexão acerca dos filhos deste “novo tempo”, pode ser lida no seguinte link: http://antoniamarques.pt/blog/2019/04/27/a-porca-decadencia-das-miseraveis-elites-contemporaneas/

[2]Helena Roseta em “Grande Entrevista” na RTP3 – https://youtu.be/FZGPIhgnY2o

[3]  – Lê-se no programa de apresentação do Teatro Nacional de São João (TNSJ) 2019/2020.

As indústrias (re)criativas ao serviço de Madonna

Quando a matéria-prima que alimentaas indústrias culturais e (re)criativas se esgota, instala-se o pânico. Os diretores gerais reúnem-se de emergência, convocam os seus assessores e expressam-se num tom coloquial:

 Precisamos de um novo produto, capaz de seduzir as massas e influenciar os consumidores/espectadores.

 O estado de pânico das indústrias (re)criativas é cíclico e constante. Afinal quando temos uma indústria que se caracteriza, genericamente, pela criação de produtos culturaistão-somente adaptados ao consumo generalizado das massas, em linha com a singela máxima do – quanto mais melhor – tendo sempre como referência a acumulação de capital, não se poderia esperar outro resultado.

Bom exemplo destas práticas são as declarações dos programadores culturais e outros agentes subsidiados pela indústria (re)criativa, a propósito dos eventos que promovem: Foi um êxito! Bilheteiras esgotadas, a opinião e crítica na imprensa especializada é unânime, foi o mais participado festival de sempre!, as receitas ultrapassam as expectativas da organização…

Como se a relevância do ato cultural pudesse alguma vez ser mensurável apenas pelo número de espectadores que participam nos eventos.

 As crises e consequente pânico da indústria ocorrem igualmente no sector discográficoOs senhores das discográficas (geralmente em representação de grandes grupos financeiros), emmomentos de crise, recorrem à exploração de territórios culturais onde há muito sabem que o lucro é garantido. Selecionam a presae revestem-na de uma outra roupagem que permita ao consumidor apreciar sem qualquer esforço interpretativo.

O mais recente exemplo dessas  apropriações culturais, protagonizadas pela pela indústria discográfica, pode ser apreciado no projeto comercial de Madonna – Madame X. No meio de umas quantas faixas musicais e outras sedutorascantorias, lá surge a canção Batuka.

Pois é, Madonna, a luminosa estrela do pop, recorreu ao tradicional batuku (diz-se batuku ou batuk, e não batuka) cabo-verdiano para recriar uma das músicas integradas no seu novo álbum.

Dizem as revistas de tom rosa, que  Madonna está apaixonada pelas ilhas e pela vibrante manifestação da cultura popular cabo-verdiana.

Esta paixão, acrescentam, deve-se ao fervoroso empenhamento do Dino Santiago na promoção de Cabo Verde na diáspora. Nas famigeradas revistas, pode ainda ler-se que Dino não descansa enquanto não conseguir levar a avó do pop a cabo verde depois, claro está, de a levar à Quarteira.

Ficamos sem palavras, não sabemos como agradecer o tão enorme empenhamento altruísta deDino.

Não se espantem, a fórmula de sedução barata é a mesma aplicada em território luso. Madonna confessa-se apaixonada pelo fado e tantas outras coisas, que vai conhecendo ao longo da sua estadia em Lisboa.

Até podemos desvalorizar os empenhados malabarismos de Madonna nas suas recriações pop. Como se referiu anteriormente, esta é a fórmula que as indústrias culturais utilizam para vender os seus produtos comerciais. O que não devemos ignorar é o entusiasmo quase delirante com que certos governantes promovem mais ou menos disfarçadamente esta iniciativa comercial da Madonna, por, dizem, ser importante para Cabo Verde. Será que os senhores governantes e seus assessores não sabem que este show é apenas mais uma sofisticada estratégia de marketing concebida por uma poderosa maquina-de-fazer-estrelas, pouco ou nada preocupada em homenagear a identidade da cultura cabo-verdiana? Estamos certos que sabem, e por isso mesmo,  é indecoroso e eticamente reprovável que se sirvam deste fenómeno de massas para propagandearem como vitória das suas políticas governativas, sobretudo quando se vivem momentos de crescente crítica social perante a falta de resposta em resolver os reais problemas que quotidianamente afligem as populações. 

Idêntico comportamento tem tido o executivo governamental português (não fossemos nós países irmãos quase gémeos). Promovem festas em honra da estrela pop, concedem benesses camarárias, e claro, de quando em vez o nosso estimado Presidente da República, repleto de abraços e bafientos beijinhos para oferecer, promove esta e outras estrelas do mainstream. Devemos acarinhar a presença da estrela pop, porque afinal, tem sido muito bom para Portugal– dizem, de boca cheia. 

Para que esta sucinta reflexão não fique órfã, analisemos um pouco mais detalhadamente esta cantiga de Madonna.

O videoclip oficial começa com uma breve introdução acerca do estilo musical Batuku, referindo que este estilo, outrora terá servido como ato de libertação de um povo escravizado. Mais à frente esclarece que a igreja, naquele tempo mais recuado, Terá proibido este género musical por considerar um ato de rebelião. Fica-nos a dúvida histórica, quem escravizava quem? Porque o fazia e como o fazia? 

A canção Batuka baseia-se numa estrutura  verso-refrão, o que lhe confere uma simplicidade capaz de agradar a todos sem, no entanto, se comprometer com lugar algum, nem determinar um gosto em particular, expedientes típicos do género musical pop (Simon Frith). Esta simplicidade pode ser sedutora para o ouvido, mas é essencialmente redutora, pois esvazia a mensagem identitária do Batuku, transformando-o numa espécie de música chuinga.

Muitos poderão argumentar que esta canção e seu vídeoclip, pelo facto de podermos visionar a bandeira de Cabo Verde durante 42 segundos possa ser, por si só, benéfico para a promoção do país no mundo. Mesmo que durante estes triunfantesmomentos de orgulho nacionalista, sejamos forçados a presenciar as acrobacias decadentes da septuagenária cantora pop, bem no centro do ecrã. Julgo que há formas mais dignas e eficazes de representar culturalmente o paísno mundo!

A grosseria desta inopinada recriação de Madonna, é uma constante durante todo o vídeoclip, destaca-se, pela sua desfaçatez a opção de filmar as praias da costa litoral do antigo colonizador, para representar as paisagens das ilhas, o que demonstra um profundo desconhecimento e desrespeito pela história de Cabo Verde. Não chega o mar, o vento, o sol da costa portuguesa para recriar a verdadeira alma e paisagem crioula. Falta a luz do mais a sul, a aridez e a sede da terra, falta a orografia singular da ilha de Santiago.

Em síntese, esta é uma canção repleta de clichés e de referências grosseiras que irremediavelmente nos afastam da oportunidade de sentirmos a força do Batuku e a sua autêntica expressão identitária. Certamente Madonna não saberá – o Batuku  é uma das mais antigas manifestações musicais de Cabo Verde (KaKá Barbosa). 

Perante a clareza dos propósitos comerciais desta canção e de toda a indústria discográfica que a promove, como podemos tolerar que os governantes e suas assessorias propaguem estas estratégias comerciais de Madonna?

Será que todos lhes devemos lembrar que esta apropriação do Batuku por parte da indústria esvazia-o da sua dimensão cultural e identitária? Já não estamos todos cansados destes ministérios das indústrias culturais, marionetas de grupos financeiros e outros interesses em que o lucro e a projeção de vedetas são os únicos objetivos?

Não deveriam ser exatamente os governantes a proteger e a valorizar toda a dimensão criativa e identitária do povo que representam face ao ataque dos predadores que transformam a genialidade em banalidade?

Resta-nos perceber se efetivamente não o fazem, por falta de competência ou por completa incapacidade e negligência.

Cabe a nós povo dizer a todos eles que o Batuku é uma genuína e resistente manifestação cultural tantas vezes menosprezada e reprimida pelo antigo governo colonial português, referindo-se a este género musical como música do povoou música do preto(Gonçalves e Monteiro, 2005)

Cabe a todos, sempre que assistimos ao branqueamento da história, proteger e dignificar o passado, sem pastiches, maquilhagens e (ou) preconceitos. Senhores governantes, o nosso património cultural não é um produto, nem um bem transacionável. 

Ilha do Fogo, São Filipe, 2019

Contos da Macaronésia

(Publicado no Jornal Santiago Magazine 22 de agosto 2019,
https://www.santiagomagazine.cv/index.php/mais/n-colunista/3285-madona )

Ki Negoce, Centro Cultural de CABO VERDE apresenta…

“Ki Negoce”, Um filme de Toni da Costa.
Produção – Contos da Macaronésia – 2019

Versão original em Crioulo – Legendado em PT. -design – www.pedrobrito.eu


Maria Eóla, Atriz Convidada.


Menino Taré, Ator convidado.

 

um filme de Tony C.
produção – CONTOS DAS MACARONÉSIA
apoios : CENTRO CULTURAL DE CV – CM   – restaurante
a cozinha da “Nha Donna” – Ministério das Industrias do vento – Portugal
Versão original em Crioulo – Legendado em PT. -design – pedrobrito.eu

O Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa

No dia 6 de julho foi inaugurado, em Lisboa (antigo edifício da UCCLA), o Centro Cultural de Cabo Verde (CCCV).
A inauguração, que contou com a presença de diversos governantes de Cabo Verde e Portugal e outras individualidades, foi também consagrada à celebração dos 44 anos de independência de Cabo Verde.
Num púlpito, posicionado no exterior do edifício, foram proferidos os discursos da praxe, pelos representantes de ambos os estados e, assim que as intervenções terminaram, foi servida a tradicional cachupa. Simultaneamente, aproveitando a dedicação do povo ao entretenimento gastronómico, um restrito grupo de individualidades descerrou placas, cortou fitas e, já no interior do edifício, sorriu para os fotógrafos.
A festa do povo, no exterior do CCCV, foi animada com música cabo-verdiana, enchendo de morabeza o (já pouco típico) bairro lisboeta.

Inauguração do Centro Cultural de Cabo Verde em julho de 2019

Após o frenesim do evento e azáfama inerente à partilha das fotografias tipo “imprensa cor-de-rosa” nas redes sociais, terá chegado o tempo de, serenamente, refletirmos acerca da criação do CCCV em Lisboa, bem como sobre as motivações e objetivos que norteiam este projeto cultural.

É essencial Cabo Verde ter um centro cultural em Lisboa?

A resposta é evidente – Sim! Inequívoca é também a responsabilidade que se exige aos decisores culturais e políticos na gestão de um espaço como este, sob pena de, num eventual fracasso, prejudicarem a imagem de Cabo Verde, dos seus criadores/artistas e demais atores envolvidos.

É fundamental que, desde os primeiros dias da sua existência, a instituição dignifique a missão a que se propõe, apresentando uma estratégia robusta, capaz de traduzir a diversidade das expressões identitárias da cultura de Cabo Verde.
Espera-se, por isso, que a equipa de gestão do CCCV promova um efetivo conhecimento, através de uma aposta sólida na investigação, pesquisa e divulgação dos reais valores da cultura cabo-verdiana e do seu posicionamento no mundo.

Caso essas premissas não sejam devidamente acauteladas, o CCCV poderá correr o risco de (como sucede com outros espaços culturais em Lisboa) se transformar em mais um “palco” de vedetas disfuncionais com apelidos sonantes, mas que, efetivamente, pouco representam o verdadeiro pulsar criativo da cultura cabo-verdiana.
Outro grave risco, caso falhe a missão identitária do CCCV, será o de se ver convertido em salão reservado ao convívio das elites e patrícios que se movem pela capital lusa (alguns com honrarias de estado), apregoando a beleza dos “ventos mornos”.

Estranha-se que, até à data, não tenha sido divulgada informação sobre a missão, a equipa de gestão, os estatutos, etc. Pelo contrário, as raras e dispersas declarações sobre o assunto, proferidas pelos representantes de estado, governantes e suas assessorias, que têm vindo a público, são até reveladoras de algum desnorte.

“Já temos a equipa identificada, mas ainda não está completamente concretizada, porque estamos nessa fase de profissionalizar, mas já temos um perfil definido (de quem deverá gerir), que terá que ser alguém com uma vertente profissional, digamos, muito grande”, Eurico Monteiro, Embaixador de Cabo Verde em Portugal.

Igualmente inusitada foi a argumentação apresentada, nos discursos inaugurais, para a pertinência da criação do centro. De acordo com as declarações proferidas, o espaço representa, de alguma forma, a recuperação do antigo triângulo constituído pelas ruas de São Bento, Poço dos Negros e Poiares de São Bento, conhecido bairro da comunidade cabo-verdiana, antigo “porto de abrigo” da vaga migratória dos anos 70, que ali se fixou.

Até poderia ser uma argumentação plausível se, no decorrer da última década os lisboetas não tivessem assistido à descaracterização identitária dos bairros, em prol do reforço da indústria turística. A comunidade cabo-verdiana há muito não vive neste triângulo, há muito tem sido empurrada para os inúmeros subúrbios da cidade.

Infelizmente o CCCV não será suficiente para inverter o programa de turistificação da cidade. Bem pelo contrário, a sua possível inscrição (promessa de Fernando Medina) nos famigerados roteiros turísticos da cidade, poderá até ser desprestigiante para os artistas/escritores/criadores que participem neste projeto, seja qual for a sua nacionalidade. Pois, é apanágio das cidades gentrificadas industrializar a criação artística, com intuito de a converter numa espécie de cultura à lá carte.

Insossas e pouco esclarecedoras foram as declarações da ministra da cultura portuguesa. No seu breve e ineloquente discurso, apenas sublinhou o facto de o novo CCCV estar próximo da Casa Amália e, desta proximidade (afirmou a ministra) contribuir para o sucesso da candidatura da morna a património imaterial da humanidade.
Esperava-se mais entusiasmo e compromisso institucional da ministra que tutela o sector da cultura. Infelizmente, a sua prestação não foi surpreendente, deparamo-nos com uma ministra em fim de ciclo governativo e a cumprir o protocolo. Lamentável.

Sublinha-se, com agrado, as declarações do Senhor Ministro da Cultura de Cabo Verde pelo facto, de salientar ser propósito do seu ministério, fazer deste espaço um elemento de proximidade com as comunidades cabo-verdianas, residentes em Portugal. São conhecidas as suas declarações acerca da diáspora cabo-verdiana, esquecida e tantas vezes quase abandonada pelos decisores políticos do seu país.
Esperamos que este seja o leitmotiv que estabelece, ao nível cultural, a tão desejada proximidade com as comunidades, sem distinção social.

Menos felizes foram as declarações com as quais pretendia enaltecer o projeto, referindo que o CCCV é o” primeiro centro cultural de um pais africano bem no coração de Lisboa e às portas da Europa”.
Esta lógica centralista e de posicionamento geoestratégico em pouco ou nada contribui para o reconhecimento cultural de um povo. A não ser que este Ministério conceba a cultura como um bem transacionável e este centro cultural como uma plataforma de mercantilização pseudocultural, integrada numa indústria re(criativa) ao serviço do mercado e das lógicas de consumo, tão bem protagonizadas pela gentrificação das cidades. Se assim for é lamentável – A comunidade cabo-verdiana, e portuguesa, dispensam (mais) um projeto comercial assim.

O que se espera deste projeto cultural?

Após a leitura de algumas notícias, veiculadas nas redes digitais e outros órgãos de comunicação, impõem-se algumas questões que, certamente, gostaríamos de ver esclarecidas:

  • O que se entende por “cedência” do espaço, onde está instalado o CCCV, pela Câmara de Lisboa? Que contrapartidas exige a autarquia lisboeta a Cabo Verde?
  • Essa “cedência” tem algum prazo de validade?
  • Que critérios vão ser utilizados na seleção da “equipa” que vai gerir este espaço cultural?
  • Foi aberto algum concurso público para a escolha e contratualização dos técnicos que têm a seu cargo a remodelação do imóvel?
  • Foi aberto algum concurso público para a realização da identidade Visual do CCCV?
  • Quando serão conhecidos a missão e os estatutos do CCCV?
  • Quando será divulgado o seu programa operativo?

Perguntas pertinentes para as quais se esperam céleres respostas!


Julho de 2019
(Publicado no Jornal  “Santiago Magazine” em 17 de julho de 2019)
#contosdamacaronésia

Ilustração animada

O Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa

“Espera-se que a equipa de gestão do CCCV promova um efetivo conhecimento, através de uma aposta sólida na investigação, pesquisa e divulgação dos reais valores da cultura cabo-verdiana e do seu posicionamento no mundo. Caso essas premissas não sejam devidamente acauteladas, o CCCV poderá correr o risco de (como sucede com outros espaços culturais em Lisboa) se transformar em mais um “palco” de vedetas disfuncionais titulares de apelidos sonantes, mas que, efetivamente, pouco representam o verdadeiro pulsar criativo da cultura cabo-verdiana. Outro grave risco, caso falhe a missão identitária do CCCV, será o de se ver convertido em salão reservado ao convívio das elites e patrícios que se movem pela capital lusa (alguns com honrarias de estado), apregoando tão só a beleza dos ‘ventos mornos'”.

Artigo Integral – https://santiagomagazine.cv/index.php/mais/n-colunista/3118-o-centro-cultural-de-cabo-verde-em-lisboa?fbclid=IwAR2ipXGauioxodEoUfHuvnt5VZKkt1W4RUaq-3pH8sovFXr14vfwkynEu9E

Soberanias no tempo das (tele)dependências

As fronteiras de um país soberano e independente não correspondem apenas aos seus limites geográficos. As telecomunicações, sobretudo as de cariz hipermédia, pelas características técnicas que possuem, aceleram as interações e relacionamentos entre os diferentes povos a uma escala (quase) planetária.

Considero particularmente pertinente, neste dia em que se celebram os 44 anos de independência de Cabo Verde, que se reflita acerca do poder destes (ainda) novos meios de comunicação, bem como, sobre o que oferecem e os desafios que colocam às independências, sobretudo às nações jovens como é Cabo Verde.
Serão as interações em rede uma ameaça aos valores democráticos?
Poderão as redes sociais operar mudanças rápidas e significativas no tecido social e, por consequência, provocar possíveis perdas de identidade?
Poderá a maturidade crítica de um povo ser aferida através da sua relação com as redes e por consequência, com outros povos e culturas?
Poderá a rápida propagação de boatos na internet influenciar a opinião dos mais incautos e desinformados cidadãos e, concomitantemente, provocar instabilidade nas organizações sociais e democráticas de um país?

Não se julgue que estas interrogações e desafios, que os meios de comunicação despertam, são tema exclusivo deste tempo presente em acelerada transformação. De todo! Os jornais, a rádio e a televisão há muito são reconhecidos (para o bem e para o mal) catalisadores sociais. A este propósito propõe-se a reflexão sobre  o recente livro de Marques Mendes “Afirmar Portugal no Mundo”.(1)
Marques Mendes, por despacho ministerial, criou a RTP Internacional (RTPi) em 1992 (embrião da atual RTP África), era à data Ministro-adjunto de Cavaco Silva.

Ora vejamos o que tem para nos contar o referido ex-ministro, a propósito do seu ambicioso projeto. 

Num primeiro momento, Marques Mendes avança com uma breve contextualização, repleta de pretensiosas e arrepiantes afirmações acerca do desígnio secular de Portugal  e de que forma o país se deve projetar no futuro. Passo a citar:

“Quem tem poder económico e social (como têm as comunidades portuguesas), pode legitimamente ambicionar a ter poder político efetivo. Sobretudo em tempo de globalização.” “ (…) A solidariedade é uma avenida com dois sentidos. No caso vertente, a avenida que conduz a solidariedade da pátria para com os seus filhos emigrados e a avenida em que estes retribuem a solidariedade recebida, afirmando o seu poder de influência estratégica em favor de Portugal, dos seus desígnios e ideais.”

A prosa continua, até que voltamos a confirmar aqueles tiques neo-expansionistas, que há muito lhe conhecemos, em linha com o seu colega de partido, Marcelo Rebelo de Sousa. 

“(…) há a dimensão africana da nossa política, (escreve Marques Mendes) que podemos e devemos potenciar. Se na União Europeia está o nosso espaço vital, na África de expressão portuguesa  está um dos nossos espaços naturais, fundado em séculos de historia, de convivência e de partilha. (…) somos mais fortes dentro da União Europeia quanto mais firmes e influentes formos na prática do ideal africano.”

Se estas infelizes passagens não forem suficientes para provocar o pasmo dos leitores, o que se transcreve em seguida, será certamente capaz de gerar estupefacção no leitor mais desprevenido.

“A política de cooperação (escreve Marques Mendes) faz-se hoje, infelizmente, sem grandes meios. Há um superavit de voluntarismo e um défice de instrumentos de intervenção. (…) cooperação com África não representa despesa. Pelo contrário, significa investimento politicamente reprodutivo.”

Após a soberba destas afirmações, julgo pertinente refletirmos sobre quem são os portugueses que representam o “investimento politicamente reprodutivo” em Cabo Verde? 

  • serão as empresas portuguesas que, em nome desse investimento, celebram contratos ruinosos para o erário público de Cabo Verde?
  • serão os portugueses possuidores de terrenos doados por governantes cabo-verdianos (como prática da designada “tradição morabeza”)? 
  • serão os institutos e entidades ditas culturais que preenchem de forma muito duvidosa o panorama cultural e artístico em Cabo Verde, sob a égide do poeta imortal?
  • serão os líderes das organizações não-governamentais, com agendas pretensamente solidárias empenhadas numa espécie de evangelização moderna?

Indiferente a estas e outras controvérsias, Marques Mendes elege como representantes desse investimento politicamente reprodutivo os portugueses que “pensam em grande e agem com ambição. Afinal, somos um país pequeno, mas não somos uma nação irrelevante”

Após discorrer sobre o caráter das relações que Portugal deve ter com África de expressão portuguesa, Marques Mendes avança para o tema central do livro – a criação da RTPi. Esse que foi, nas palavras do seu criador, um projeto único, apenas comparável às grandes obras de estado do século XX em Portugal. 

Esse projecto de televisão que, numa dimensão bem-intencionada permitiu aproximar, desde o primeiro momento, a diáspora portuguesa, adquiriu, no entanto, surpreendentes contornos políticos.
Cabo Verde terá sido palco de um desses momentos políticos, ao qual Marques Mendes se refere com carinho paternalista, revelando um desses singulares episódios.

Carlos Veiga, à data primeiro-ministro de Cabo Verde, terá telefonado a Marques Mendes, dirigindo-lhe um especial e urgente pedido – Seria possível que a RTPi transmitisse um jogo de futebol (taça dos campeões europeus em que participava o Benfica). Este pedido, nas palavras de Veiga, traduzia uma exigência popular, que ele e o seu governo gostariam de ver satisfeita, permitindo assim, claro está, daí retirarem dividendos eleitorais.

De repente a RTPi, que havia sido criada para divulgar a cultura, a língua, o poeta e os afetos, adquire uma importância fulcral no tabuleiro da política internacional, capaz de mobilizar governantes e influenciar os mais altos dirigentes das nações africanas de expressão portuguesa. Marques Mendes, orgulhoso da sua obra evidencia esta leitura, referindo que a RTPi é um privilegiado instrumento de aproximação dos portugueses espalhados pelo mundo, mas, é também, uma ferramenta de persuasão e legitimação do poder estratégico que Portugal teve no passado e deseja manter no futuro. Posição, infelizmente, corroborada por inúmeros governantes e intelectuais portugueses e cabo-verdianos, quando afirmam ser esse o natural desígnio de Portugal em África.

As mais recentes e escabrosas iniciativas em que Portugal assumiu um papel preponderante, confirmam essa vontade expancionista. São disso exemplo, as comemorações do Dia de Portugal no Mindelo e na Praia, com paradas, condecorações e afetos cheios de portugalidade; os acordos de pescas entre a UE e Cabo Verde; a estratégica celebração do Dia da Europa no Mindelo, repleta de sorrisos e abraços forçados; as promessas eternamente adiadas, no que respeita a livre circulação de cidadãos cabo-verdianos no espaço Schengen; a manutenção dos interesses monopolistas da TAP que tanto penalizam os são-vicentinos. 

Portugal assume, sempre que considera oportuno, uma posição de ator/observador escondido atrás do biombo, mas sorrateiramente lá vai tomando para si aquilo que muitos portugueses ainda acham que lhes pertence.

É neste contexto que se torna urgente uma profunda reflexão acerca dos desafios e ameaças, com os quais Cabo Verde se vê confrontado, no que à sua soberania diz respeito.

Na atualidade, os meios de comunicação assumem sofisticadas formas de persuasão, pelo que, à falta de maturidade cívica de um povo, podem fazer perigar as soberanias, sobretudo em países jovens como Cabo Verde.
Talvez volte a fazer sentido colocar (em tom de provocação) a clássica pergunta retórica, com uma “ligeira” reformulação semântica:
Quer/Pode Cabo Verde continuar a ser uma nação independente?”
Só o povo saberá responder.

5 de julho de 2019,
Contos da Macaronésia

Publicado no Jornal Santiago Magazine, 5 de julho 2019