A feiticeira de fonte Lima

Apresentações | Lançamentos

No dia 13 de junho de 2017 Lançamento do Livro na Cidade da Praia, Biblioteca Nacional. Este evento contou com a presença da Doutora Fátima Fernandes e do músico compositor tradicinal Gil Moreira.

No dia 15 de maio  de 2017 foi formalmente apresentado livro "A feiticeira de Fonte Lima" no El'Corte Inglês em Lisboa.

Este evento contou com a presença do autor Abraão Vicente, Celina Pereira e José Luís Hopffer Almada.

Celina Pereira

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(...) Esta narrativa ( A Feiticeira de Fonte Lima), é toda ela molhada e abençoada por um certo elemento sagrado e desejado por cada caboverdeano, mórmente nas ilhas. A CHUVA! A chuva, musa inspiradora de tantos poetas, músicos, compositores e começam a vir à minha mente…

Amílcar Cabral… «Venha mamãe velha / Venha ouvir comigo o bater da chuva lá no seu portão/é um bater de amigo que bate dentro do meu coração».

Paulilo Vieira… Tema «Ti Jon Poca” Tchuva de Setembre é um ‘ sperança…»

Tété Alhinho…« Dia que tchuva bem / m’ta bem b’scobe pa nô bem dançá»

Biuss … « M´ crê lembrá quel bonhe de tchuva na quintal»

Humberto Ramos… « M´ tem ovide notîcia de terra / Ês dzê’m m’agora tchuva bem/que até barragem já’s jazê/ E c’mida já ca ê problema»

Kiki lima … « Tchuva desliza ca bô feji/ Escorrê na nha corpe dâ’m esse prazer m’ta pedi’b / Saciá’m esse sede devagarim/ M’tem sede de tchuva/ M’tem sede de tchuva»

Ovídio Martins… CHUVA EM CABO VERDE

Choveu/Festa na terra/Festa nas Ilhas/Soluçam os violinos choram os violões/nos dedos rápidos dos tocadores/ «Dança Morena/dança mulata/menininha sabe como vocês não têm» / E elas sabinhas/dão co’as cadeiras/ dão co’as cadeiras/ Choveu/ Festa na terra/ Festa nas ilhas/Já tem milho pa cachupa/já tem milho pa cuscus/Nas ruas nos terreiros/por toda banda/as mornas unem os pares/as mornas unem os pares/no bailes nacionais/Mornas e sambas/mornas e marchas/mornas mornadas/ Choveu/Festa na terra/Festa nas Ilhas/que antam e dançam / e riem e choram de contentamento/Soluçam os violinos choram os violões/nos dedos rápidos dos tocadores/ «Dança morena/dança mulata/menininha sabe como vocês não têm» / E elas sabinhas/dão co’as cadeiras/dão co’as cadeiras, dão co’as cadeiras.

 

Todo o imaginário do autor passeia pelo mundo do fantástico do Arquipélago. Para Abraão Vicente há uma ama Yáyá, a ama que conta estórias, e para uma menina Celina e seus Irmãos uma Ti Júlia, grande contadeira que até dialogava com o seu gato Xana-Xaninha.

A mente voa e revejo um punhado de meninas e meninos de olhos grilidos e aconchegando-se para afastar o medo, quando era a vez das feiticeiras com os rabos que se acendiam, gongons, canilinhas, serenas/sereias encantadas. Tudo já era mais pacífico à chegada da Branca Flor, Ti Lobo, Chibinho e Ti Ganga, e do herói Blimundo que inebriado pela canção e voz do menino do cavaquinho, pensando na sua amada Codêzinha , ao engano retorna ao palácio do Senhor Rei.

(...)

as crianças que partem à descoberta da casa da feiticeira Nha Bichencha, estão em grande grupo; são muitas, e pela habilidade artística do ilustrador, é tanto o movimento que até ouvimos as suas gargalhas e vozes cantando …« Pirolite que bate,que bate/Pirolite que já bateu/ quem gosta de mim é ela/quem gosta dela sou eu/Q’onde mim era nove/ mim era flor de pô na peite/agora mim é bêdje/mim é bassoura de barrê quintal»

A chuva que caí de grávidas nuvens também se ouve. Molha as crianças, mas reparem de onde se escapam as gotas? Dos buracos dos Bindes (de cuscus) tradicionais de Fonte Lima.

(...)

Todo o percurso até à casa de Nha Bichencha é uma chamada de atenção aos incautos para algo URGENTE. O contacto das nossas crianças com a mãe Natureza. Elas descobrem um pé de caju, uma mangueira rosa, uma roseira de rosas brancas, um pé de romã, símbolo milenar do amor e da fertilidade, e um limoeiro cheio de limões vistosos.

(...)

Para mim tudo o que se congrega em Nha Bichencha, com todo o seu saber, é uma ode e preito de homenagem à MULHER CABOVERDEANA, em termos globais. Ela é a guardiã de saberes ancestrais, independentemente do seu chão de proveniência; é ela que passa o testemunho das tradições, e no seu percurso de vida tanto serve um belo chá de hortelã acompanhado de bolos de mel, ensina a moldar o barro para o binde de cúscús, ensina a cantarolar um batuco, e tudo o que deve fazer parte do aprendizado referente à essência dos componentes da nossa identidade e ou identidades. Partes integrantes de um património a preservar.

Todas as experiências vividas, por essa meninada de Fonte Lima fez esvair o grande mistério sobre a tal feiticeira de quem os pais contam estórias de encantar.

(...)

Uma palavra de apreço ao artista / ilustrador Pedro Brito, que com seus traços e cores também de mestiçagem aliados á narrativa presente nos faz também correr ao lado dessa meninada, ouvir a chuva cair, e quiçá escutar os seus cochichos e cantigas.

Entrando neste universo criado por Abraão Vicente, penso em Luís Romano.

Caboverdiano, escritor, poeta, intelectual de fina escrita e no seu «Cabo Verde

Renascença de uma Civilização no Atlântico Médio», em que à boa maneira dos etnólogos mais exigentes, recolhe bases da nossa memória colectiva e atrevo-me a dizer:

«Não há Sampadjudos nem Badios! Não há Badios nem Sampadjudos! há

CABOVERDENAOS, ligados indelevelmente pela riqueza e diversidade da sua

CULTURA»

Para terminar a minha estória, se estivesse em Barlavento diria «Agora má grande ta bá panhá/má piquenin/ ta bá cercá…»

E em Sotavento «Sapatinho rubera riba, sapatinho rubera baxo…quem qui sabê más ta conta midjor.»

 

Celina Pereira

Lisboa, 15 de Maio de 2017

 

(texto integral - aqui [+] )

 

PEDRO BRITO 2017

 

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